Cavalos e Suas Origens: Bashkir Curly — O Cavalo de Nevada que Perde a Crina no Verão
Conheça o Bashkir Curly, o cavalo de Nevada que perde a crina no verão. Entenda a genética dos cachos, o erro da origem russa e sua hipoalergenicidade.
André Ferreira13 min de leitura
O que sabemos é o que se vê: um cavalo de pelos encaracolados, cílios torcidos, crina que cai no verão e renasce no inverno, e uma resistência ao frio que, no inverno de 1951–52 no Nevada, fez todos os outros cavalos do rancho precisarem de alimentação suplementar enquanto os Curly sobreviveram sozinhos na pastagem.
O Debate sobre a Nomenclatura
O nome "Bashkir Curly" vem de uma fotografia publicada pela revista Nature Magazine em 1938, mostrando um cavalo cacheado da região russa de Bashkiria. A imagem foi reproduzida em um cartoon de John Hix e associou, sem evidência, os cavalos cacheados americanos aos Bashkirs russos.
Décadas de pesquisa derrubaram essa origem. A autora Shan Thomas, em consultas com cientistas russos, com o departamento de agricultura soviético e com o Zoológico de Moscou, encontrou concordância unânime: não existe cavalo de pelo encaracolado na região da Bashkiria. O único equino russo que ocasionalmente apresenta pelagem crespa é o Lokai, encontrado no Tajiquistão, uma raça de tração e montaria da Ásia Central, geneticamente distante dos Bashkir e Lokai, ambos originários de muito mais ao sul e a oeste. Não há registro de importação do Lokai para a América do Norte nos diários de bordo dos navios russos que chegaram à costa oeste.
Em 1817, havia apenas 16 cavalos em toda a América Russa. Os poucos animais transportados para o Alasca eram Iacutos, raça siberiana adaptada ao frio extremo, geneticamente distante dos Bashkir. Em 1990, um projeto de identificação formal confirmou o que as pesquisas históricas já indicavam: o cavalo Bashkir russo não é ancestral do Curly americano. O nome permaneceu por inércia vocabular, não por evidência.
Uma terceira teoria sugere que os ancestrais do Curly tenham cruzado a ponte de Bering durante a última Era Glacial, migrando da Ásia para a América. O problema: não existe evidência fóssil de cavalos nas Américas nesse período, o registro fóssil mostra ausência de equinos no continente desde o final do Pleistoceno até a reintrodução pelos espanhóis no século XVI.
A origem do Bashkir Curly permanece, oficialmente, sem resposta.
Testes de tipagem sanguínea em 200 exemplares realizados pelo Laboratório de Sorologia da UC Davis encontraram influência genética de Quarto de Milha e Morgan, mas nenhum marcador comum que definisse o Bashkir Curly como uma raça geneticamente distinta. O que os estudos de DNA mais recentes confirmaram é que cavalos norte-americanos de pelagem cacheada compartilham uma mutação dominante comum, o que justifica classificá-los como raça distinta sem, no entanto, revelar sua origem.
O início documentado: a família Damele
Em 1898, o jovem Peter Damele e seu pai cavalgavam pela Cordilheira Peter Hanson, nas montanhas remotas do centro de Nevada, perto de Austin. O que viram os surpreendeu: três cavalos com cachos apertados cobrindo o corpo inteiro. De onde tinham vindo, ninguém sabia.
Daquele dia em diante, sempre houve cavalos cacheados na propriedade Damele. O filho de Peter, Benny Damele, continuou criando-os para o trabalho no rancho, selecionando especificamente pela resistência e pelo temperamento. Durante décadas, os animais foram testados nas condições reais do Great Basin: pastagens racionadas, terreno acidentado, invernos extremos. Grande parte dos Bashkir Curly registrados hoje nos Estados Unidos traça sua linhagem até esse plantel.
O nome "Bashkir" já estava circulando na imprensa equina quando, em 1971, os fundadores do American Bashkir Curly Registry (ABCR) decidiram adotá-lo, não por acreditarem na origem russa, mas porque já estava estabelecido no vocabulário dos criadores. O objetivo do ABCR era salvar os animais da extinção: muitos estavam sendo abatidos por desconhecimento, sem que seus donos percebessem o que tinham.
Como é o Bashkir Curly
O Bashkir Curly é um cavalo de porte médio, em torno de 1,52 m. Sua conformação é compacta e robusta, frequentemente comparada aos primeiros Morgans americanos. Os cascos são escuros, quase perfeitamente redondos e excepcionalmente duros. Os olhos são afastados, característica comum a raças orientais, o que amplia o campo de visão. Os potros nascem com pelagem espessa e encaracolada, cachos dentro das orelhas e cílios torcidos.
A pelagem: três tipos de cachos e uma sazonalidade incomum
A pelagem do Bashkir Curly não é uniforme, varia entre animais e entre estações. No inverno, os cachos podem assumir três padrões distintos: o efeito veludo (pelos macios e densos formando um tapete suave), a onda marmorizada (cachos amplos e regulares) e os ringlets (cachos em espiral cobrindo o corpo inteiro). No verão, os pelos do corpo perdem os cachos e ficam lisos ou levemente ondulados.
A crina é o aspecto mais incomum. Muitos Curly perdem completamente os pelos da crina durante o verão, e às vezes parte da cauda também. Os fios crescem de volta no outono. Acredita-se que esse mecanismo seja uma adaptação: a crina encaracolada em espiral ficaria completamente emaranhada ao longo dos anos se não caísse periodicamente. Os pelos que retornam são finos, macios e muito cacheados.
Os pelos das canelas são cacheados ou ondulados e mantêm o comprimento o ano inteiro. Os cílios são sempre enrolados, mesmo em potros recém-nascidos, antes de qualquer outra característica da raça se manifestar.
Como identificar se um potro herdou os cachos
Como a mutação cacheada é dominante, qualquer potro que herde uma cópia do gene vai expressar a pelagem, não existe portador silencioso. Isso simplifica a identificação, mas exige atenção às pistas certas logo ao nascimento.
Os indicadores mais precoces e confiáveis são os cílios torcidos e os pelos encaracolados dentro das orelhas, presentes desde o primeiro dia de vida, antes mesmo que a pelagem do corpo esteja totalmente seca. Potros com KRT25 tendem a apresentar cachos em espiral visíveis já nas primeiras semanas; potros com SP6 podem ter cachos mais suaves e definir melhor o padrão ao longo do primeiro inverno.
Um potro liso nascido de pais Curly cruzados com outra raça provavelmente não herdou a mutação. Como a transmissão é de aproximadamente 50% por progenitor Curly, metade da ninhada esperada de cruzamentos com cavalos lisos não terá cachos, e isso é normal, não indica problema de saúde.
O que esse estudo confirmou de forma definitiva: a pelagem cacheada não é única, surge de mutações independentes em populações distintas. Isso significa que cavalos cacheados em diferentes partes do mundo não são necessariamente parentes. Representações de cavalos com pelagem cacheada já aparecem em arte chinesa do século II d.C., e relatos sul-americanos do século XVIII também descrevem animais com essa característica. A mutação pode ter surgido mais de uma vez, em diferentes momentos, em diferentes populações.
Hipoalergenicidade: o que a ciência diz de fato
O Bashkir Curly é amplamente descrito como "hipoalergênico", e essa é uma das principais razões pelas quais a raça atrai cavaleiros que sofriam de alergia e achavam que nunca poderiam montar. A realidade é mais complexa.
Um estudo observacional com 40 cavaleiros alérgicos acompanhou os participantes por 12 meses montando Curly Horses. 37 dos 40 não apresentaram reações alérgicas significativas. Por outro lado, análises de amostras de pelo e de ar ao redor dos animais encontraram níveis de alérgenos similares aos de outras raças, o que sugere que a tolerância não vem de menos alérgeno no ambiente.
Um estudo mais recente, publicado em 2024 na revista Pneumologie (Mitlehner et al.), trouxe uma hipótese mais sofisticada: os Curly podem não ter menos alérgenos, mas podem mediar tolerância imunológica, ou seja, a exposição a eles pode, em certos indivíduos, treinar o sistema imune a reagir de forma diferente. Esse mecanismo, se confirmado em estudos maiores, explicaria por que muitas pessoas alérgicas toleram os Curly sem que os níveis de alérgeno sejam menores.
O consenso atual: alguns cavaleiros alérgicos toleram bem os Curly; outros não. Não é uma garantia universal. Quem tem alergia severa deve fazer contato supervisionado antes de adquirir um animal.
O Bashkir Curly no Brasil
A raça é praticamente ausente no Brasil. Não existe registro formal de plantel ou associação de criadores do Bashkir Curly no país, e os poucos animais presentes foram importados individualmente, geralmente por cavaleiros com restrição alérgica que buscaram a raça por indicação médica ou por afinidade com a característica estética.
O clima brasileiro apresenta desafios específicos para a raça. O Bashkir Curly foi selecionado para invernos rigorosos do Great Basin americano, um ambiente de altitude, seco e de frio intenso. Em regiões tropicais e subtropicais, a pelagem espessa exige manejo diferenciado nos meses mais quentes, com atenção à ventilação, banhos regulares e prevenção de irritações de pele causadas pela umidade retida nos cachos. Em regiões de altitude no sul do país, a adaptação tende a ser mais natural.
Para criadores interessados, o contato direto com o American Bashkir Curly Registry (ABCR) ou com a International Curly Horse Organization (ICHO) é o caminho para informações sobre importação, registro e genealogia de animais disponíveis nos Estados Unidos.
Saúde e manejo
O Bashkir Curly é considerado uma raça saudável e rústica. Seu metabolismo eficiente, herança das gerações ferais no árido Great Basin americano, o torna um easy keeper: engorda com facilidade em pastagens ricas e requer controle de dieta similar ao do Fjord e do Haflinger. Laminite por superalimentação é o principal risco metabólico.
A pelagem espessa pode acumular umidade e detritos, aumentando o risco de irritações de pele se a escovação for negligenciada. Nos períodos de muda, especialmente quando a juba e a cauda são perdidas, a pele exposta fica mais vulnerável a insetos e à radiação solar.
Animais com a mutação KRT25 podem desenvolver hipotricose em graus variados. Animais com linhagens de Quarto de Milha no pedigree devem ser testados para HYPP e PSSM. Linhagens com sangue Árabe devem ser avaliadas para atrofia cerebelar (CA), um estudo identificou 2,8% de portadores da mutação associada a essa condição neurológica em Curly testados.
Usos e aptidões
O Bashkir Curly é um cavalo versátil, adequado tanto para disciplinas ocidentais quanto inglesas. A facilidade de treinamento e o temperamento calmo o tornam especialmente valioso em equoterapia e hipoterapia, e a possível tolerância imunológica o abre para um público de cavaleiros que de outra forma não poderiam interagir com cavalos.
Disciplinas documentadas: western pleasure, barrel racing, reining, trabalho com laço, adestramento, salto, hunter, trilha de resistência, condução e gymkhana. A versatilidade não é acidental: o plantel Damele selecionou por décadas animais capazes de trabalhar longas jornadas em terreno acidentado, e essa base rústica persiste no tipo moderno.
O Bashkir Curly realmente veio da Rússia?
Não há evidência que sustente essa origem. O nome foi associado à raça depois de uma fotografia publicada em 1938 mostrar um cavalo cacheado russo. Pesquisas históricas e genéticas descartaram a ligação, não existem registros de cavalos cacheados na Bashkiria nem de importação de tais animais para a América. Em 1990, um projeto de identificação formal confirmou que o cavalo Bashkir russo não é ancestral do Curly americano. O nome se manteve pelo uso contínuo entre criadores, apesar da falta de evidências genéticas.
O Curly perde os pelos da crina todos os anos?
Muitos perdem, sim, especialmente os que carregam a mutação KRT25. A perda pode ser completa (toda a crina e parte da cauda desaparecem no verão) ou parcial (pelos quebrados e ralos). Isso é normal para a raça e considerado uma adaptação evolutiva. Os pelos crescem de volta no outono. Animais com apenas a mutação SP6 tendem a manter a crina com mais volume ao longo do ano.
O Bashkir Curly é hipoalergênico?
Parcialmente confirmado, mas não garantido para todos. Estudos mostram que muitos cavaleiros com alergia a cavalos toleram bem os Curly, e uma pesquisa de 2024 propôs que os animais podem mediar tolerância imunológica, ou seja, a exposição pode treinar o sistema imune a reagir de forma diferente, não necessariamente porque os alérgenos são menores. Análises de amostras de pelo e ar encontraram níveis de alérgenos similares a outras raças. Quem tem alergia deve fazer contato supervisionado antes de adquirir um animal.
Todo cavalo cacheado é um Bashkir Curly?
Não. A pelagem cacheada pode surgir de mutações independentes em diferentes populações equinas. Existe pelo menos uma outra mutação documentada (SP6) que produz cachos sem hipotricose e aparece com maior frequência no Missouri Fox Trotter. Cavalos cacheados registrados com o ABCR são considerados Bashkir Curly; cavalos cacheados de outras origens podem ter pelagem similar sem compartilhar ancestralidade.
Como saber se um potro herdou os cachos?
Os indicadores mais precoces são os cílios torcidos e os pelos encaracolados dentro das orelhas, visíveis nas primeiras horas de vida. Como a mutação é dominante, qualquer potro que herda uma cópia do gene a expressa; não existe portador silencioso. Potros nascidos lisos de um progenitor Curly simplesmente não herdaram a mutação naquela geração, o que é estatisticamente esperado em aproximadamente metade dos cruzamentos.
O Curly tem problemas de saúde específicos?
Sim, dependendo da linhagem. Animais com KRT25 podem desenvolver hipotricose, perda de pelos em grau variável. Linhagens com Quarto de Milha devem ser testadas para HYPP e PSSM. Uma pequena porcentagem dos Curly testados (2,8% em um estudo) carregava a mutação de atrofia cerebelar (CA), associada principalmente a Árabes. A pelagem espessa pode acumular umidade e causar irritações de pele sem escovação adequada.
O Curly serve para equoterapia?
É um dos cavalos mais indicados para equoterapia, por dois motivos que se somam: temperamento calmo e disposto, que facilita o trabalho com pacientes de diferentes perfis; e a possível tolerância imunológica que permite que cavaleiros alérgicos, que normalmente não poderiam ter contato com cavalos, participem de programas terapêuticos. Essa combinação é rara no mundo equino.