Cavalos e Suas Origens: Cavalo de Przewalski — O Cavalo que Sumiu da Natureza em 1969 e Hoje Volta às Estepes da Mongólia

O único cavalo selvagem do mundo desapareceu em 1969. Voltou graças a 12 animais em zoológicos — e agora também por clonagem. História completa.

Cavalos e Suas Origens: Cavalo de Przewalski — O Cavalo que Sumiu da Natureza em 1969 e Hoje Volta às Estepes da Mongólia
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Em 1969, o cientista mongol N. Dovchin se aproximou de uma fonte chamada Gun Tamga, no Gobi Dzungariano. O que ele viu ali foi registrado como o último avistamento confirmado de um cavalo de Przewalski selvagem na história: um garanhão solitário. Depois disso, silêncio.

Por mais de 30 anos, a espécie foi declarada Extinta na Natureza. Não havia desaparecido por catástrofe, havia sumido em camadas, ao longo de décadas, por uma combinação de caça, captura e pressão do gado sobre os últimos habitats. O que restava eram algumas centenas de animais dispersos em zoológicos da Europa e dos Estados Unidos, todos descendentes de um punhado de fundadores capturados no início do século XX.

Nome científico: Equus ferus przewalskii Nomes locais: Takhi (Mongólia) · Kertagy / Kerkulan (Cazaquistão) Status IUCN: Em Perigo (Endangered) · desde 2011 Cromossomos: 66 (cavalos domésticos têm 64) Extinção na natureza: 1969 Altura: 1,22 a 1,42 m · Peso: 250 a 360 kg · Longevidade: até 36 anos

O que define o cavalo de Przewalski

O cavalo de Przewalski (Equus ferus przewalskii) é o único equino vivo que nunca passou pelo processo de domesticação, com a ressalva importante de que esse status está em debate científico ativo desde 2018. Diferente dos mustangues norte-americanos e dos brumbies australianos, que são cavalos domésticos que voltaram a viver na natureza, o Przewalski representa uma linhagem geneticamente distinta, separada dos cavalos domésticos há milênios.

A diferença é visível até no nível cromossômico: o Przewalski tem 66 cromossomos, contra 64 dos cavalos domésticos. Cruzamentos entre as duas linhagens produzem descendentes férteis com 65 cromossomos, o que significa que a separação genética é real, mas não absoluta.

Na Mongólia, o animal é chamado de takhi, palavra que carrega o sentido de espírito ou ser sagrado. No Cazaquistão, os nomes tradicionais são kertagy ou kerkulan. O nome científico mais aceito é Equus ferus przewalskii, tratando-o como subespécie do cavalo selvagem Equus ferus, embora alguns taxonomistas o classifiquem como espécie separada. Não há consenso estabelecido.

Como chegamos a conhecer o Przewalski

Os povos da Mongólia o conheciam há séculos. O monge budista Bodowa deixou uma descrição do animal por volta do ano 900 d.C. Pinturas rupestres nas cavernas da França e da Espanha, datadas de até 20.000 anos atrás, mostram cavalos com características semelhantes. Se retratam exatamente essa linhagem ou um ancestral comum, ainda é debatido entre paleontólogos.

Para a ciência ocidental, o animal chegou em 1878, quando o coronel russo Nikolai Przhevalsky voltava de uma expedição pela Ásia Central carregando o crânio e a pele de um animal abatido por caçadores quirguizes perto da fronteira sino-russa. Três anos depois, em 1881, o zoólogo Ivan Semyonovich Polyakov examinou o material em São Petersburgo e concluiu que se tratava de uma espécie nova para a ciência, batizada Equus przewalskii em homenagem ao explorador.

O debate científico: Przewalski vs. Botai

Durante décadas, o Przewalski foi apresentado como o último cavalo verdadeiramente selvagem, nunca domesticado. Essa afirmação precisou ser revisada.

Em 2018, um estudo publicado na Science por Gaunitz et al. revelou que os cavalos da cultura Botai, habitantes do Cazaquistão há cerca de 5.500 anos, estavam geneticamente mais próximos dos Przewalski modernos do que de qualquer raça doméstica atual. Parte dos pesquisadores interpretou isso como indicativo de que os Przewalski modernos seriam descendentes de animais Botai domesticados que escaparam para o estado selvagem.

Essa conclusão foi contestada. Em 2021, William Taylor e Christina Barrón-Ortiz publicaram argumentos contra as evidências de domesticação Botai. Em 2024, Taylor reiterou sua posição na Scientific American. O debate permanece aberto.

O que é documentado com segurança: os Przewalski modernos representam uma linhagem geneticamente distinta dos cavalos domésticos atuais, com diferença cromossômica clara. Isso o torna único entre todos os equinos vivos, mesmo que a origem precisa dessa distinção ainda seja disputada.

Características físicas e adaptações

O Przewalski é menor e mais robusto que o cavalo doméstico. Tem pernas curtas, pescoço espesso e cabeça grande com perfil convexo, características que o distinguem à distância de qualquer raça doméstica.

A pelagem é fulva: tom de marrom-amarelado nas laterais, clareando em direção ao ventre. As patas são mais escuras, frequentemente com listras zebradas abaixo do joelho. Uma listra dorsal escura percorre o pescoço até a cauda, chamada de listra primitiva. A crina é curta e completamente ereta, sem franja na testa, um dos marcadores visuais mais imediatos para identificar a espécie.

A muda de pelagem ocorre uma vez por ano. No inverno a pelagem fica mais longa e mais clara; no verão, mais curta e mais viva. A taxa metabólica basal no inverno cai para metade da taxa de primavera, uma adaptação programada ao ciclo sazonal, não simplesmente uma resposta à escassez de alimento.

Comportamento e vida social

Na natureza, o Przewalski vive em grupos familiares compostos por um garanhão dominante, algumas éguas e seus potros. Machos jovens expulsos do grupo formam bandos de solteiros à margem do território das famílias.

O garanhão defende o grupo, mas são frequentemente as éguas que lideram os deslocamentos em busca de água e pasto, padrão comportamental documentado nas populações reintroduzidas no Parque Nacional Hustai, na Mongólia. No inverno, quando a vegetação fica soterrada pela neve, os cavalos escavam com os cascos para alcançar gramíneas congeladas, comportamento registrado tanto nas populações mongóis quanto na população que habita a Zona de Exclusão de Chernobyl.

A quase-extinção: como uma espécie desaparece em camadas

O colapso da população selvagem não aconteceu de uma vez. Foi um processo de décadas, com causas sobrepostas.

As expedições de captura no início do século XX foram devastadoras. Para apanhar potros vivos, a única estratégia viável porque os adultos eram rápidos demais, os caçadores frequentemente matavam os adultos do grupo. Entre 1897 e 1902, quatro expedições trouxeram 53 potros vivos para a Europa, distribuídos em zoológicos.

As guerras mundiais dizimaram parte desse plantel. O grupo de Askania Nova, na Ucrânia, considerado o mais valioso geneticamente, foi abatido por soldados alemães durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial. Ao final da guerra, restavam apenas dois plantéis: Munique e Praga. Dos 31 animais sobreviventes, apenas 9 se tornaram ancestrais da população subsequente.

Na natureza, os últimos registros tornaram-se cada vez mais raros nos anos 1950 e 1960. Duas expedições científicas, em 1955 e 1962, não encontraram nenhum animal. O último registro confirmado foi feito em 1969, o animal solitário próximo a Gun Tamga. Por mais de 30 anos, a espécie foi classificada como Extinta na Natureza.

O gargalo genético: 12 fundadores para toda uma espécie

Toda a população de Przewalski viva hoje descende de 12 indivíduos, os únicos dos 53 capturados que deixaram descendência genética até o presente. O décimo terceiro fundador era filho de um garanhão Przewalski com uma égua doméstica mongol, havendo portanto contribuição genética doméstica documentada em parte da linhagem. O décimo quarto foi uma égua capturada na natureza em 1947, o último animal selvagem incorporado ao plantel cativo.

Estudos estimam que cerca de 60% dos genes únicos da população original foram perdidos. A heterozigosidade da espécie é de apenas 0,165%, confirmada pelo sequenciamento genômico completo publicado por Flack et al. (2024) na G3: Genes, Genomes, Genetics, número comparável ao de outros animais que passaram por gargalos populacionais severos.

A clonagem: devolvendo genes perdidos

Em agosto de 2020, nasceu no San Diego Zoo o primeiro clone de Przewalski: um potro macho batizado de Kurt, em homenagem ao geneticista Kurt Benirschke, precursor do Frozen Zoo, banco de material genético criopreservado de espécies ameaçadas.

Kurt é geneticamente idêntico a Kuporovitch (SB615), garanhão nascido no Reino Unido em 1975 e transferido para os Estados Unidos, onde morreu em 1998. Em 1980, amostras de seu tecido foram criopreservadas. Kuporovitch havia sido identificado como um dos indivíduos geneticamente mais valiosos da população cativa: carregava alelos únicos ausentes em outros animais vivos, incluindo material genético de dois dos 12 fundadores originais que havia sido perdido nas demais linhagens.

A técnica utilizada foi a transferência nuclear de célula somática: fibroblastos de Kuporovitch foram descongelados, cultivados e tiveram seus núcleos transferidos para óvulos de égua doméstica, cujos próprios núcleos haviam sido removidos. O embrião resultante foi implantado em uma égua doméstica que o gestou até o termo.

Em fevereiro de 2023, um segundo clone nasceu: Ollie, nomeado em homenagem ao geneticista Oliver Ryder. Um ponto técnico relevante: Kurt e Ollie têm o genoma nuclear de Kuporovitch, mas o DNA mitocondrial de égua doméstica. Como os óvulos vieram de cavalos domésticos, esse material não será transmitido à descendência.

Segundo estudo publicado em fevereiro de 2025 na revista Animals (Novak et al.), Kurt e Ollie devem atingir maturidade sexual entre o final de 2025 e 2028. Quando se reproduzirem, serão os primeiros clones de qualquer espécie a reintroduzir variantes genéticas perdidas em uma população selvagem. Até março de 2026, não há registro confirmado de descendentes.

A reintrodução: de volta às estepes

O esforço global de reintrodução começou nos anos 1990, depois de décadas de reprodução coordenada em zoológicos da Europa e dos Estados Unidos, dando a essa linhagem uma segunda chance de viver em estado selvagem.

Na Mongólia, o Parque Nacional Hustai sozinho tem mais de 200 animais em manadas autossustentáveis desde 1992, a maior população selvagem reintroduzida do mundo. Na China, o plantel ultrapassou 900 animais em agosto de 2025, segundo a agência Xinhua, cerca de um terço do total global.

No Cazaquistão, em 4 de junho de 2025, seis animais do primeiro lote foram soltos em liberdade real após um ano de aclimatação. No mesmo dia, um segundo lote de sete animais chegou do Zoo de Praga e do Parque Nacional Hortobágy, na Hungria, para iniciar seu próprio período de aclimatação. A meta é 40 a 45 animais até 2029.

Na Europa, populações semi-selvagens estão estabelecidas na Hungria, França e Alemanha. Na Espanha, desde 2023, os primeiros Przewalski em liberdade na Europa Ocidental foram soltos para controlar vegetação densa e reduzir risco de incêndios florestais. Na Zona de Exclusão de Chernobyl, uma população não planejada de mais de 100 animais foi documentada em 2019.

O papel do Przewalski no ecossistema

O Przewalski não é apenas uma espécie que precisa ser salva. Nas estepes da Ásia Central, ele é um engenheiro do ecossistema: seu pastejo irregular impede o domínio de arbustos sobre as pastagens, cria micro-habitats para polinizadores, pequenos mamíferos e aves de nidificação no solo, e acelera o retorno de nutrientes ao ciclo do solo.

No Cazaquistão, o programa de reintrodução é construído em torno de um conceito específico: completar o trio de grandes herbívoros nativos da estepe. O Przewalski se junta ao kulan e ao antílope saiga para reconstituir a teia de espécies que modelou essas pastagens por milênios. A Iniciativa Altyn Dala, que venceu o Prêmio Earthshot de 2024 na categoria Proteger e Restaurar a Natureza, coordena essa restauração como um dos 17 Flagships Mundiais de Restauração reconhecidos pelo Programa das Nações Unidas para a Década dos Ecossistemas.

Na Espanha, o critério foi diferente mas igualmente concreto: os animais foram soltos nas Terras Altas Ibéricas para ocupar o nicho deixado pelo declínio do pastejo tradicional de ovelhas, abrindo a vegetação densa que vinha acumulando combustível para incêndios florestais. Aqui o Przewalski não é símbolo. É ferramenta.

As ameaças que persistem

A principal ameaça às populações reintroduzidas é o cruzamento com cavalos domésticos, que dilui progressivamente a distinção genética que os programas de conservação buscam preservar. Doenças transmitidas por cavalos domésticos, especialmente babesiose equina e garrotilho (Streptococcus equi), representam risco grave para populações sem imunidade natural contra esses patógenos.

A predação por lobos, especialmente sobre potros, é fator natural documentado no Parque Nacional Hustai. A mineração ilegal e a pressão do gado nômade degradam o habitat no Gobi. A baixa diversidade genética remanescente torna toda a população estruturalmente vulnerável ao dzud, os invernos mongóis severos que já derrubaram a espécie no passado.

Cronologia

~900 d.C. Primeira referência escrita conhecida: o monge Bodowa descreve o animal na Mongólia.

1881 Polyakov descreve formalmente a espécie em São Petersburgo.

1897 a 1902 Quatro expedições capturam 53 potros para zoológicos europeus, frequentemente matando os adultos.

1945 Soldados alemães abatêm o plantel de Askania Nova. Restam apenas Munique e Praga.

1969 Último avistamento confirmado na natureza. Espécie declarada Extinta na Natureza.

1992 Primeiros animais reintroduzidos no Parque Nacional Hustai, Mongólia.

2008 a 2011 IUCN reclassifica: Extinta na Natureza, Criticamente Ameaçada e Em Perigo, nessa ordem.

2020 Kurt nasce no San Diego Zoo: primeiro clone de Przewalski da história.

2023 Ollie, segundo clone, nasce. Primeiros Przewalski livres na Europa Ocidental, na Espanha.

Junho de 2025 Seis animais soltos em liberdade real no Cazaquistão. Segundo lote de sete chega para aclimatação no mesmo dia.

Perguntas frequentes

Por que a IUCN mudou a classificação da espécie ao longo dos anos? Porque o critério mudou junto com a realidade. Enquanto não havia nenhum animal vivendo livremente na natureza, a classificação era Extinta na Natureza. Com as primeiras reintroduções bem-sucedidas na Mongólia, a IUCN reclassificou para Criticamente Ameaçada em 2008, quando a população selvagem ainda era pequena demais para ser considerada estável. Em 2011, com o crescimento consistente das manadas reintroduzidas, passou para Em Perigo, categoria em que permanece. A mudança não indica recuperação total, indica que a espécie voltou a existir como entidade selvagem funcional.

O que acontece se Kurt e Ollie não se reproduzirem dentro da janela esperada? O material genético de Kuporovitch permanece criopreservado no Frozen Zoo do San Diego Zoo. Se necessário, novos clones podem ser gerados a partir do mesmo tecido. A Revive & Restore confirmou que a linha celular segue disponível. O prazo de 2025 a 2028 é uma estimativa baseada em maturidade sexual típica da espécie, não um limite definitivo.

O cruzamento com cavalos domésticos contamina toda a população ou apenas animais individuais? Animais individuais, mas o efeito se acumula ao longo de gerações. Quando um híbrido se reproduz dentro de uma população reintroduzida, seus descendentes carregam material genético doméstico. Com o tempo, sem monitoramento e manejo genético ativo, a distinção cromossômica e alélica da linhagem selvagem se dilui. É por isso que os programas de conservação investem em rastreamento individual por microssatélites e separação física de áreas onde Przewalski e cavalos domésticos coexistem.

Fontes

  1. Novak, B.J. et al. Endangered Przewalski's Horse, Equus przewalskii, Cloned from Historically Cryopreserved Cells. Animals, v.15, n.5, 613, fev. 2025.
  2. Flack, N. et al. The genome of Przewalski's horse (Equus ferus przewalskii). G3: Genes, Genomes, Genetics, v.14, n.8, 2024.
  3. Goto, H. et al. A Massively Parallel Sequencing Approach Uncovers Ancient Origins and High Genetic Variability of Endangered Przewalski's Horses. Genome Biology and Evolution, v.3, 2011.
  4. Gaunitz, C. et al. Ancient genomes revisit the ancestry of domestic and Przewalski's horses. Science, v.360, n.6384, 2018.
  5. Taylor, W.T.; Barrón-Ortiz, C.I. Rethinking the evidence for early horse domestication at Botai. Scientific Reports, v.11, 7440, 2021.
  6. Taylor, W.T. When Horse became Steed. Scientific American, v.331, n.5, dez. 2024.
  7. Xinhua/CGTN. China's Przewalski's horse population tops 900, a third of global total. 7 ago. 2025.
  8. The Astana Times. Six Przewalski Horses Released into Wild in Kazakhstan After Year of Acclimatization. 4 jun. 2025.
  9. Altyn Dala Conservation Initiative / Frankfurt Zoological Society. Przewalski's Horses Released into the Steppe in Kazakhstan. 4 jun. 2025.
  10. Earthshot Prize. Altyn Dala Conservation Initiative wins the Earthshot Prize 2024. earthshotprize.org, nov. 2024.
  11. Revive & Restore. The Przewalski's Horse Project. reviverestore.org
  12. Smithsonian's National Zoo. Przewalski's Horse. nationalzoo.si.edu
  13. San Diego Zoo Wildlife Alliance. Kurt and Ollie. sandiegozoowildlifealliance.org
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.