Cavalos e Suas Origens: Mangalarga Marchador — O Cavalo que Nasceu do Encontro entre a Família Real Portuguesa e os Fazendeiros Mineiros

O Mangalarga Marchador é a raça nacional do Brasil. Origem em 1808, marcha batida e picada, gene DMRT3 e o stud book da ABCCMM com mais de 600 mil animais.

Cavalos e Suas Origens: Mangalarga Marchador — O Cavalo que Nasceu do Encontro entre a Família Real Portuguesa e os Fazendeiros Mineiros
O Marchador em movimento: a marcha suave que nasceu do cruzamento entre cavalos reais portugueses e éguas do interior mineiro.

O Mangalarga Marchador é a raça equina nacional do Brasil, reconhecida pela Lei 12.975/14, originária do sul de Minas Gerais. Formada a partir de cruzamentos entre garanhões Alter-Reais trazidos pela corte portuguesa em 1808 e éguas nativas da região, a raça é definida por seu andamento natural — a marcha, um passo de quatro tempos que elimina o impacto para o cavaleiro. É a maior raça equina de origem brasileira, segundo dados da ABCCMM, com mais de 775 mil animais registrados no stud book (o registro oficial de pedigree da raça) e cerca de 26 mil associados.

Em 1808, quando a corte portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro fugindo de Napoleão, D. João VI trouxe consigo, entre outros pertences reais, cavalos da raça Alter-Real — animais criados na Coudelaria de Alter do Chão, fundada em 1748 por D. João V em Portugal, derivados do andaluz, considerados os melhores cavalos de sela da época. Eram cavalos de luxo, procurados por príncipes e nobres europeus para atividades de lazer e serviço.

Como o Mangalarga Marchador é conhecido

No Brasil, a raça é chamada de Mangalarga Marchador, Marchador ou simplesmente Mangalarga — embora esse último nome seja tecnicamente compartilhado com o Mangalarga Paulista, raça distinta. O nome oficial no registro da ABCCMM é Cavalo Mangalarga Marchador. Em publicações científicas internacionais, aparece como Mangalarga Marchador sem tradução — a raça não tem nome consolidado em inglês. Em alguns mercados externos, é referenciada como Brazilian Marchador ou Brazilian Gaited Horse.

O que ninguém previu é que um desses garanhões, colocado para reproduzir na fazenda Campo Alegre, no sul de Minas Gerais, cruzaria com éguas nativas da região — animais de sangue berbere e crioulo, moldados pela dureza do interior brasileiro — e produziria algo que Portugal nunca havia imaginado: um cavalo de marcha suave, resistente e dócil, adaptado às exigências do campo brasileiro.

Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, chamou esse primeiro resultado de Sublime.

A família real como ponto de partida

A história do Mangalarga Marchador começa, na prática, com uma decisão de Estado. Quando D. João VI transferiu a corte para o Brasil em 1808, o Brasil deixou de ser colônia e passou a ser sede do Império Português. Com isso, chegaram instituições, funcionários, cultura — e cavalos.

Os Alter-Reais que vieram com a família real eram animais refinados, de temperamento aristocrático e andamento de gala. A base da raça era o andaluz, com influência de sangue berbere e de cavalos nativos da Península Ibérica. Não foram criados para percorrer serras mineiras nem para longas jornadas por terrenos acidentados. Eram cavalos de parada, de desfile, de corte.

O sul de Minas Gerais, no entanto, tinha outras demandas. A região da Comarca do Rio das Mortes chamou a atenção dos colonizadores por suas boas condições para a criação de animais: água em abundância e vegetação constituída de matas, capões e ervas pardacentas, adequadas para a produção de forragem. Minas Gerais já se destacava como centro criador de equinos desde o século XVIII — e a chegada dos Alter-Reais viria aprimorar ainda mais seus criatórios.

Foi nesse contexto que Gabriel Francisco Junqueira, herdeiro da Fazenda Campo Alegre, iniciou seus cruzamentos. Outro fazendeiro importante nessa história foi José Frausino Junqueira, sobrinho de Gabriel — exímio caçador de veados, aprendeu a valorizar os cavalos marchadores por serem resistentes e ágeis para transportá-lo em suas longas jornadas. O resultado desses cruzamentos foi o Sublime e seus descendentes: animais de porte elegante, temperamento dócil e uma marcha diferente.

O que é a marcha e por que ela importa

Quase todos os cavalos do mundo trotam. O trote é um andamento diagonal de dois tempos com fase de suspensão — os quatro cascos saem do chão simultaneamente por uma fração de segundo. Esse momento de suspensão gera impacto quando o animal repousa os cascos de volta no chão. Para o cavaleiro, isso significa absorver um choque repetido durante horas de cavalgada.

O Mangalarga Marchador não trota.

Seu andamento natural, chamado de marcha, é um passo de quatro tempos com tríplice apoio — em determinado momento do movimento, três membros estão em contato com o solo ao mesmo tempo. Enquanto o trote tem um instante em que o cavalo "voa" com os quatro pés no ar, a marcha nunca perde o contato com o chão. Não há suspensão, não há impacto. O cavaleiro desliza.

Existem duas variantes da marcha. A marcha batida move os membros em sequência diagonal — parecida com o fox trot americano —, com tempos de apoio duplo diagonal maiores que os laterais. A marcha picada é um andamento lateral, com momentos de apoio duplo lateral, mais suave ainda, comparável ao paso llano do cavalo Peruano. Nos terrenos planos em velocidade normal, o Marchador sobrepisa — as pisadas dos membros traseiros cobrem ou ultrapassam as marcas dos dianteiros, o que indica equilíbrio e impulsão sem esforço aparente.

Essa marcha não é ensinada. É genética. Um bom Marchador nasce marchando.

O nome que veio de uma fazenda no Rio de Janeiro

Há várias versões para a origem do nome Mangalarga. Uma das mais citadas está relacionada a uma fazenda em Paty do Alferes, no interior do Rio de Janeiro, chamada Mangalarga — o nome vinha de uma serra que existia na região. Seu proprietário, impressionado com os cavalos da família Junqueira, adquiriu alguns exemplares. Quando alguém se interessava pelos animais, ele indicava as fazendas do sul de Minas. As pessoas passaram a procurar os fazendeiros perguntando pelos cavalos da fazenda Mangalarga. A referência virou nome.

O "Marchador" foi acrescentado como distinção quando criadores paulistas, ao introduzirem sangue de Puro Sangue Inglês, Árabe e Saddlebred, produziram animais que passaram a trotar marchado, não a marchar. Esse ramo paralelo daria origem a uma raça diferente: o Mangalarga Paulista, ou simplesmente Mangalarga. São raças distintas, com stud books diferentes, apesar da origem comum.

A cisão que criou duas raças e o nascimento da ABCCMM

Por décadas, os criadores mineiros e paulistas conviveram sob o mesmo guarda-chuva associativo. A tensão era crescente: os mineiros queriam preservar a marcha batida e a picada como padrão; os paulistas defendiam o trote marchado que haviam selecionado em São Paulo.

Em 14 de setembro de 1948, reuniram-se no salão do Novo Hotel Glória, em Caxambu, sul de Minas Gerais, para a Reunião Preliminar de Fundação. O encontro foi dirigido pelo presidente da Sociedade Rural do Sul de Minas, José Bráulio Junqueira de Andrade, com a presença do Superintendente de Produção Animal da Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, Joaquim Fernandes Braga.

No ano seguinte, durante a I Exposição Estadual de Equídeos de 1949 no Parque de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte, os criadores mineiros se reuniram com o Secretário de Agricultura do estado, Américo René Giannetti. Após as discussões sobre o futuro das raças mineiras, os fazendeiros do sul de Minas receberam apoio do governo estadual para criar sua própria associação.

Em 16 de julho de 1949 aconteceu a reunião oficial de fundação. O registro é preciso: "Às onze horas e trinta minutos do dia dezesseis de julho do ano de mil novecentos e quarenta e nove, em uma das salas do Departamento de Reprodução Animal, no Parque da Gameleira, nesta Capital, sob a presidência do Exmo. Sr. Dr. Américo René Giannetti, Secretário de Agricultura deste Estado, foi realizada a reunião de fundação da Associação dos Criadores do Cavalo Marchador da Raça Mangalarga."

Foram admitidos 142 sócios fundadores, que na mesma assembleia elegeram a primeira diretoria e homologaram o estatuto da entidade. O primeiro presidente foi Moacyr Rezende. Em 27 de outubro de 1950 foi definida a marca oficial: uma ferradura com um M maiúsculo no interior, proposta por Joaquim Fernandes Braga. Esse carimbo — desenhado em 1950 — identifica os Marchadors até hoje.

A instituição mudaria de nome duas vezes: em 1967 acrescentou "Brasileira" ao nome. Em 1984 passou a se chamar ABCCMM — Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador.

Do sul de Minas para o Brasil

O crescimento da raça após 1949 pode ser lido nos números do stud book. Quando Moacyr Rezende encerrou sua gestão em 1956, havia 355 animais registrados. Em 1974, os nascimentos anuais ultrapassaram 1.000 pela primeira vez. O pico histórico foi atingido em 1990, com 16.803 nascimentos em um único ano.

Uma pesquisa da Escola de Veterinária da UFMG, publicada nos Arquivos Brasileiros de Medicina Veterinária e Zootecnia, analisou os registros de 1949 até novembro de 2000 e contabilizou 290.012 animais identificados, com 8.961 criadores cadastrados. Minas Gerais concentrava 39,1% do contingente nacional. A ABCCMM registra atualmente mais de 775 mil animais em seu stud book, com cerca de 26 mil associados, segundo dados da própria associação.

A Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador, realizada anualmente em Belo Horizonte, é descrita pela ABCCMM como a maior exposição da América Latina dedicada a uma única raça equina. A 42ª edição, em 2025, reuniu mais de 1.600 animais de 18 estados.

Em 19 de maio de 2014, a presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei 12.975/14, que declara o Mangalarga Marchador raça nacional do Brasil.

Como é o Mangalarga Marchador

O Marchador é um cavalo de porte médio a compacto, construído para trabalho — não para exibição. As medidas documentadas pelo stud book da ABCCMM são:

Machos (altura na cernelha): 1,47 m a 1,57 m.

Fêmeas (altura na cernelha): 1,40 m a 1,54 m.

Peso médio: aproximadamente 400 kg.

Pelagens aceitas: todas, com exceção da albina.

A herança do Alter-Real aparece em cada detalhe do animal. Começando pela cabeça: é de tamanho médio, triangular vista de frente, com testa larga e plana e olhos grandes e expressivos. O perfil vai de reto a levemente côncavo no focinho — os criadores chamam esse segundo tipo de "perfil de carneiro". As orelhas são de tamanho médio com as pontas levemente voltadas para dentro, o que dá ao animal um aspecto sempre atento.

O pescoço é longo e musculoso, com inserção alta — ou seja, nasce alto no corpo, o que dá ao cavalo aquela postura ereta e elegante característica da raça. A espádua é inclinada para trás (os criadores chamam de "oblíqua"), e a cernelha é saliente, aquela protuberância que fica logo atrás do pescoço. Esses dois detalhes não são estéticos — são funcionais: contribuem diretamente para a qualidade da marcha, permitindo que o cavalo estenda bem os membros dianteiros a cada passo.

O dorso é curto e firme. A garupa é arredondada e musculosa. A pele é fina, os pelos curtos e sedosos ao toque. Todas as pelagens são aceitas, com exceção da albina.

A marcha batida e a marcha picada: diferenças na prática

As duas marchadas são geneticamente distintas — não é uma questão de treinamento. O stud book foi fechado para machos em 1966 e para fêmeas em 1984, e desde então a seleção aprofundou as diferenças entre as duas linhagens.

Marcha batida: movimento diagonal, som compassado e regular, sensação encorpada com impulsão. Predomina no sul de Minas Gerais e no Sudeste. Comparável ao fox trot americano.

Marcha picada: movimento lateral, som ritmado (taca-taca-taca), a mais suave das duas. Predomina no Nordeste (Bahia, Pernambuco). Comparável ao paso llano peruano.

Para longas cavalgadas em terreno variado, a batida é a preferida pela maioria dos criadores do sul de Minas. A picada é frequentemente descrita como a mais confortável das duas — o movimento lateral praticamente elimina qualquer oscilação vertical. Ambas são julgadas separadamente em competições oficiais, com critérios específicos de avaliação.

O que a genética diz sobre o Marchador

Há um paradoxo nos números do Mangalarga Marchador: são mais de 775 mil animais registrados, mas geneticamente a raça se comporta como se tivesse menos de 10 mil.

O primeiro estudo com marcadores moleculares aplicado à estrutura genética da raça foi publicado em 2009 por pesquisadores do Departamento de Biologia Geral da UFMG na revista Genetics and Molecular Research. O trabalho analisou 115 animais não aparentados de três regiões de Minas Gerais. Os principais achados:

  • Heterozigosidade média: 0,637 — valor semelhante ao do Lipizano (0,663) e do Anglo-Árabe (0,660), bem acima do Puro Sangue Espanhol (0,452) e do Crioulo Uruguaio (0,503). Em termos simples: a raça tem boa diversidade genética interna.
  • Coeficiente de endogamia médio: 1,31% — endogamia é o cruzamento entre animais aparentados, que reduz a diversidade genética ao longo das gerações. O problema está no que a inseminação artificial fez com esse número.
  • Antes da inseminação artificial (oficializada em 1994): número máximo de filhos registrados por garanhão em um ano era de 176.
  • Depois da inseminação artificial: esse número saltou para 1.322 filhos por garanhão ao ano.
  • Consequência: apenas cerca de 35 animais ancestrais seriam responsáveis por até 50% da reserva genética atual. O tamanho efetivo real da população é de 9.174 animais — apesar dos mais de 775 mil registrados.

Em 2012, um estudo mais amplo da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia confirmou o que a história já sugeria: o Mangalarga Marchador é geneticamente próximo do Cavalo Árabe e do Pantaneiro — reflexo direto da influência berbere e árabe que entrou na raça pelos garanhões Alter-Reais de 1808. O estudo também mostrou que o Marchador é uma entidade genética bem definida, com pouca mistura com outras raças nativas brasileiras nas últimas gerações.

A recomendação dos pesquisadores é direta: evitar cruzamentos entre indivíduos altamente endogâmicos e estimular o cruzamento entre animais de regiões que ainda se cruzam pouco entre si. Para o criador, isso tem uma tradução prática: o uso intensivo de poucos garanhões campeões por inseminação artificial estreita a reserva genética da raça ao longo das gerações.

Aptidões e usos

O Marchador foi criado para o campo e continua sendo, em primeiro lugar, um cavalo de trabalho e de lazer de longa distância. Sua marcha confortável, combinada com resistência física e temperamento dócil, faz dele o parceiro ideal para cavalgadas longas em terrenos acidentados.

No enduro equestre, o Marchador tem se mostrado competitivo especialmente em percursos longos em terreno irregular, onde a economia de movimento da marcha representa uma vantagem real sobre raças de trote. A ABCCMM organiza provas específicas de marcha e resistência, e a raça tem presença crescente nas provas de enduro da FEI no Brasil.

No trabalho de gado, a versatilidade e a obediência tornaram o Marchador popular entre pecuaristas do centro-oeste e do sudeste brasileiro — especialmente em fazendas de gado de corte onde o terreno irregular tornaria raças trotadoras menos eficientes.

Na equoterapia, o andamento suave e o temperamento dócil tornam o Marchador um dos cavalos mais usados em programas terapêuticos no Brasil. A marcha sem impacto é especialmente valorizada em pacientes com sensibilidade à vibração e em crianças com dificuldades motoras — a suavidade do movimento permite o trabalho terapêutico sem gerar desconforto ou instabilidade no paciente.

O Marchador na cultura brasileira

Em 2013, a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis levou ao Carnaval do Rio o enredo "Amigo Fiel: Do Cavalo do Amanhecer ao Manga-Larga Marchador" — e terminou vice-campeã. Foi a primeira vez que uma raça equina foi tema de enredo de uma das maiores escolas do país.

No ano seguinte, a Lei 12.975/14 declarou o Marchador raça nacional. Não é uma distinção protocolar: é o reconhecimento de que esse animal, criado por fazendeiros mineiros a partir de cruzamentos iniciados com cavalos reais, tornou-se parte da identidade do país. Da fazenda Campo Alegre em 1808 ao pódio do Carnaval em 2013 — são dois séculos de uma história que começou com um garanhão português e um fazendeiro mineiro que chamou o resultado de Sublime.

Perguntas Frequentes

O Mangalarga Marchador é adequado para iniciantes? O temperamento dócil e a marcha confortável tornam o Marchador uma das raças mais acessíveis para cavaleiros iniciantes. O andamento sem impacto facilita o aprendizado e reduz o cansaço nas primeiras horas de sela. Como todo cavalo, requer manejo consistente e acompanhamento adequado no início — mas dentro das raças brasileiras, é uma das opções mais indicadas para quem está começando.

Qual a diferença entre Mangalarga e Mangalarga Marchador? São raças distintas, com stud books e associações separadas. Ambas têm origem comum nos cruzamentos do século XIX no sul de Minas Gerais, mas se separaram na década de 1940. O Mangalarga foi selecionado para o trote marchado e tem porte maior. O Mangalarga Marchador foi selecionado pela marcha batida ou picada e é mais compacto. Não é uma questão de qualidade — são animais diferentes, com propósitos distintos.

O Mangalarga Marchador existe fora do Brasil? Sim, embora em números pequenos. A raça tem criadores nos Estados Unidos, Europa e em alguns países da América do Sul. O Brasil concentra mais de 95% dos animais registrados. Internacionalmente, a raça aparece em literatura especializada como "Mangalarga Marchador" — sem tradução consolidada para o inglês.

O uso massivo de inseminação artificial prejudica a raça geneticamente? É um risco documentado. Pesquisa da UFMG publicada em 2009 mostrou que, apesar do volume expressivo de animais registrados, o tamanho efetivo da população é de apenas 9.174 animais — e que a concentração de descendentes em torno de poucos garanhões campeões tende a estreitar a reserva genética da raça ao longo do tempo. Antes da inseminação artificial, o número máximo de filhos registrados por garanhão era de 176 por ano. Depois, chegou a 1.322. A recomendação dos pesquisadores é diversificar os reprodutores e estimular cruzamentos entre animais de regiões que ainda se cruzam pouco entre si.

De onde vem a marcha do Mangalarga Marchador? A marcha não surgiu com o Marchador — ela já existia antes, nas éguas de sangue Bérbere que os colonizadores portugueses trouxeram ao Brasil. O Bérbere produz naturalmente um andamento lateral de quatro tempos chamado andadura. O que o garanhão Alter-Real fez, ao cruzar com essas éguas em 1808, não foi criar a marcha — foi refiná-la. O Barão de Alfenas selecionou os filhos que marchavam melhor, geração após geração, até fixar o andamento. A ciência confirmou o mecanismo: uma mutação no gene DMRT3, identificada em estudo publicado na revista Ciência Veterinária nos Trópicos (Manso Filho et al., 2015), é responsável pelo andamento de quatro tempos nas raças marchadoras brasileiras — incluindo o Campolina.

Como surgiram a marcha batida e a marcha picada? As duas têm base genética distinta — não é treinamento. A batida, de movimento diagonal, é geneticamente mais próxima do Alter-Real e predominou naturalmente na seleção inicial. A picada, de movimento lateral, exige maior concentração do alelo DMRT3 mutante — o estudo de 2015 mostrou frequência significativamente maior desse alelo nos animais de picada. Por isso a picada é historicamente mais rara: depende de uma combinação genética mais específica. A seleção diferenciada das duas por região — batida no sul de Minas, picada no Nordeste — se formalizou após a fundação da ABCCMM em 1949, quando passaram a ser julgadas separadamente.

Quanto custa um Mangalarga Marchador? Os preços variam muito conforme linhagem, treinamento e potencial esportivo. Animais jovens sem treinamento específico podem ser encontrados a partir de R$ 8.000–15.000. Cavalos treinados e com registro completo ficam na faixa de R$ 30.000–80.000. Exemplares de elite com resultados em exposição ou enduro podem ultrapassar R$ 150.000. O mercado é ativo no sul de Minas Gerais, onde estão concentrados os principais criadores da raça.

Fontes:

  • Manso Filho, H.C. et al. (2015). Alelo DMRT3 mutante em equinos de marcha batida e picada das raças Campolina e Mangalarga Marchador. Ciência Veterinária nos Trópicos, v.18, n.1, p.58-64
  • ABCCMM — história da fundação da associação: https://abccmm.org.br/leitura?id=9627
  • ABCCMM — história e origem da raça: https://www.abccmm.org.br/araca
  • Costa, M.D. et al. (2004). Caracterização demográfica da raça Mangalarga Marchador. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.56, n.5, p.687-690
  • DeAssis, J.B. et al. (2009). Genetic diversity and population structure in Brazilian Mangalarga Marchador horses. Genetics and Molecular Research 8(4): 1519-1524
  • Silva, A.C.M. et al. (2012). Genetic variability in local Brazilian horse lines using microsatellite markers. Genetics and Molecular Research 11(2): 881-890
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.