Cavalos e Suas Origens: Akhal-Teke — O Cavalo Dourado do Deserto que Cruzou Milhares de Quilômetros pelo Karakoum

O Akhal-Teke é uma das raças mais antigas do mundo, do Turcomenistão. O cavalo que cruzou 4.300 km pelo Karakoum com seu famoso pelo metálico dourado único.

Cavalos e Suas Origens: Akhal-Teke — O Cavalo Dourado do Deserto que Cruzou Milhares de Quilômetros pelo Karakoum
Ikon, garanhão Akhal-Teke dourado — o brilho metálico da pelagem é causado pela estrutura única do pelo da raça, que redireciona a luz como um prisma. Foto: Wikimedia Commons

O Akhal-Teke é uma raça equina originária do deserto do Karakoum, no Turcomenistão, criada ao longo de milênios pelas tribos Turcômenas — especialmente a tribo dos Tekés, no oásis do Ahal. Reconhecido pela pelagem com brilho metálico único e pela resistência excepcional em condições extremas, é considerado uma das raças mais antigas ainda existentes. A raça chegou a cerca de 1.250 exemplares no pior momento da era soviética e hoje conta com aproximadamente 6.600 a 7.000 animais no mundo, classificada como vulnerável pela Equus Survival Trust. No Turcomenistão, é símbolo nacional — aparece no emblema do país e é celebrada anualmente no Dia do Cavalo Turcomano.

Em 1935, um grupo de cavaleiros turcomanos partiu de Ashgabat, no Turcomenistão, em direção a Moscou. As fontes divergem nos números exatos — a distância total é citada entre 4.000 e 4.300 quilômetros dependendo da fonte, e o trecho de deserto percorrido sem água varia entre 362 e 410 quilômetros segundo diferentes registros. O que todas as fontes confirmam é que o percurso foi completado em 84 dias, e que os Akhal-Tekes puros chegaram em condição consideravelmente melhor que os cavalos cruzados com Puro Sangue Inglês que também participaram da expedição.

Foi essa cavalgada que convenceu os gestores do stud book soviético a fechar definitivamente a raça para cruzamentos. E foi ela que mostrou ao mundo o que os Turcomanos já sabiam há gerações: o Akhal-Teke é um animal construído para resistir ao impossível.

Como o Akhal-Teke é conhecido

Em inglês, a raça é conhecida como Akhal-Teke — com hífen — ou Akhal Teke sem hífen em literatura científica. Em russo, Akhaltekinskaya (Ахалтекинская). Na Rússia czarista, esses cavalos eram chamados de Argamaks — termo que significava "cavalo sagrado" ou "de raça nobre". Os chineses da Dinastia Han os chamavam de "cavalos celestiais" — e organizaram duas expedições militares para obtê-los. Na raça, o nome combina o oásis do Ahal com o nome da tribo dos Tekés.

Uma raça de milênios — com ressalvas

A origem do Akhal-Teke é envolta em mistério e, convém ser honesto, em muita mitologia criada pelo governo do Turcomenistão para fins de identidade nacional. A tradição local afirma que a raça existe há 3.000 anos. Análises genéticas publicadas em 2019 confirmam que é uma raça antiga — mas a data exata de origem permanece incerta.

O que se sabe com razoável segurança é que o Akhal-Teke descende do Cavalo Turcoman — uma raça possivelmente extinta, criada pelas tribos nômades das estepes da Ásia Central. A tribu dos Tekés se estabeleceu no vale do Ahal, às margens do deserto do Karakoum, no sul do Turcomenistão. Ali, ao longo de séculos, selecionaram seus cavalos para sobreviver e funcionar no deserto.

Os animais eram mantidos amarrados ao lado das tendas dos seus donos, cobertos com até sete camadas de feltro para manter o pelo curto e brilhante. Antes das razias, eram submetidos a uma dieta esparsa para prepará-los para longos percursos sem água e com pouca comida. A sobrevivência da família dependia da qualidade do cavalo — e essa pressão seletiva, mantida por gerações, produziu um animal de resistência excepcional.

A chegada dos russos e o nome oficial

Em 1881, o Turcomenistão foi incorporado ao Império Russo após uma série de batalhas nas quais os cavalos das tribos locais impressionaram profundamente os militares russos. O general Kuropatkin, que combateu os Turcomanos e admirou seus cavalos, fundou um haras após a guerra e batizou oficialmente a raça de Akhal-Teke — combinando o nome do oásis do Ahal com o nome da tribo dos Tekés.

O stud book foi fechado em 1932, registrando 287 garanhões e 468 éguas. Em 1941, a primeira versão impressa do registro incluía mais de 700 animais.

A quase extinção soviética

A história do Akhal-Teke na era soviética é sombria. Com o fim do nomadismo e a mecanização da agricultura, o cavalo perdeu sua utilidade prática. A política soviética dos anos 1950 direcionou recursos para a produção de carne — e cavalos foram abatidos em massa.

O Akhal-Teke era um problema particular: seu corpo esguio e sua musculatura magra o tornavam pouco adequado para abate. Mas os números caíram drasticamente. De cerca de 20.000 animais no final do século XIX, chegou-se a apenas 1.250 exemplares no pior momento — com exportação proibida pelo governo soviético.

A raça sobreviveu graças a um punhado de criadores que resistiram às pressões do regime. Nomes como V. P. Šamborant, que criou um haras no Daguestão, e M. D. Čerkezova, que assumiu a chefia da estação de criação em Ashgabat em 1924, são citados como responsáveis por preservar o que restava da raça.

A cavalgada de 1935: a prova definitiva

A expedição de 1935 foi organizada parcialmente como resposta aos experimentos de cruzamento com Puro Sangue Inglês que vinham sendo feitos nas décadas anteriores. A ideia era simples: colocar os puros e os cruzados lado a lado no teste mais exigente possível.

O percurso de Ashgabat a Moscou foi completado em 84 dias. As fontes divergem nos números exatos da distância — entre 4.000 e 4.300 quilômetros no total, e entre 362 e 410 quilômetros de deserto percorridos sem água. O que não diverge é o resultado: os Akhal-Tekes puros chegaram em condição consideravelmente melhor que os cruzados.

A partir de 1936, todos os cavalos nascidos com sangue de Puro Sangue Inglês passaram a ser classificados fora do stud book. A raça seria preservada intacta.

Há um detalhe revelador nessa história: devido aos cruzamentos anteriores, tecnicamente todos os Akhal-Tekes existentes hoje têm algum ancestral Thoroughbred em seu pedigree — dos cavalos nascidos antes de 1936 e mantidos no stud book. Mas os nascidos após essa data com mistura ficaram de fora.

Absent: o campeão olímpico

Se a cavalgada de 1935 provou a resistência do Akhal-Teke, o garanhão Absent provou seu talento esportivo.

Filho do garanhão Arab — o mesmo que o General Zhukov montou no Desfile da Vitória de 1945 em Moscou — Absent e seu cavaleiro soviético Sergei Filatov conquistaram a medalha de ouro no Grande Prix de Adestramento nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. Em Tóquio 1964, voltaram para buscar o bronze. Em 1968, no México, Absent — agora com outro cavaleiro, Ivan Kalita — conquistou a medalha de prata.

Um Akhal-Teke no topo do adestramento olímpico é uma das histórias mais improváveis do esporte equestre — uma raça criada no deserto para razias e sobrevivência, dominando a disciplina mais refinada da equitação.

Nota: o nome do garanhão aparece grafado como "Absent" na maioria das fontes em inglês e como "Absinthe" em algumas fontes em outros idiomas — trata-se do mesmo animal.

O Turcomenistão e o culto ao cavalo

Com a independência do Turcomenistão em 1991, o Akhal-Teke tornou-se muito mais que uma raça — tornou-se símbolo nacional. O cavalo aparece no centro do emblema do país. Em abril de cada ano, o "Dia do Cavalo Turcomano" é celebrado com competições e festividades.

Essa devoção tem um lado obscuro. Geldy Kyarizov, primeiro ministro do cavalo do Turcomenistão independente e presidente da Associação Internacional de Criadores de Akhal-Teke, foi preso em 2002 após descobrir e tornar públicos cruzamentos não autorizados com Puro Sangue Inglês no hipódromo de Ashgabat — descobertos por ele com testes de DNA. Foi condenado a seis anos de prisão. Recebeu indulto em 2007 após a morte do presidente Niyazov.

Como é o Akhal-Teke

A primeira impressão ao ver um Akhal-Teke é de estranheza — e depois, de fascinação. A comparação mais frequente não é com outros cavalos, mas com um guepardo ou um galgo: longo, esguio, de musculatura seca e visível, com pernas compridas e um pescoço alto e fino.

Altura na cernelha: 144 a 163 cm, com a maioria dos animais entre 150 e 160 cm.

Peso: 430 a 500 kg — números que, combinados com o corpo alongado e as pernas finas, criam a impressão de um animal mais leve do que realmente é.

Pelagens: todas as cores sólidas são aceitas. As mais comuns são baia (cerca de 40% da população), isabela/palomino (22%), preta (12%) e alazã (11%).

A cabeça é longa e estreita, com olhos amendoados de expressão viva — frequentemente descritos com pálpebras levemente caídas. As orelhas são longas e voltadas para frente. O pescoço é longo, fino e de inserção alta. A crina e a cauda são escassas — alguns animais têm praticamente nenhuma crina. Não há franjas nos boletos. A pele é fina e o pelo muito curto e raso.

A característica mais famosa da raça é o brilho metálico da pelagem. Esse efeito é causado pela estrutura do pelo: o núcleo opaco é reduzido e em alguns pelos pode estar ausente, fazendo com que a parte transparente redirecione a luz — criando um reflexo dourado, prateado ou cobre dependendo da cor base. Nas pelagens isabela e palomino, o efeito é especialmente impressionante. O brilho varia significativamente entre os animais da raça.

O andamento único: o "Teke Glide"

Um estudo realizado pela Dra. Molly Nicodemus, da Universidade do Estado do Mississippi, identificou uma particularidade no andamento do Akhal-Teke que o distingue da maioria das outras raças.

No trote convencional, os cavalos movem os membros em pares diagonais simultaneamente, criando um ritmo de dois tempos com um momento de suspensão. O Akhal-Teke, em vez disso, pousa cada casco individualmente — ainda em sequência diagonal, mas desassociando os pares. O resultado é um andamento de quatro tempos ao trote que elimina o momento de suspensão e, consequentemente, o impacto transmitido ao cavaleiro e ao dorso do cavalo.

Esse andamento — chamado pelos criadores americanos de "Teke Glide" — torna o Akhal-Teke excepcionalmente confortável para percursos longos e pode contribuir para a longevidade do dorso do animal ao longo dos anos.

Aptidões esportivas

No enduro, a raça é naturalmente adaptada: resistência documentada em condições de calor extremo, baixa frequência cardíaca de repouso com alto volume de ejeção e capacidade de recuperação eficiente fazem dele um animal adequado para longas distâncias em terrenos difíceis.

No concurso completo, produziu cavalos de nível competitivo nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990 — com destaque para o garanhão Kandar, que competiu no nível Avançado por mais de uma década com oito cavaleiros diferentes.

No adestramento, além de Absent, produziu cavalos competitivos em nível regional e nacional em vários países.

No salto, o pequeno Polygon — com apenas 154 cm de altura — saltou 225 cm, batendo o recorde russo da modalidade.

Com aproximadamente 6.600 a 7.000 animais no mundo, esses resultados são expressivos. Como escreveu uma criadora americana, citada pela Akhal-Teke Association of America: é como uma escola pequena onde cada aluno chega ao topo do esporte nacional.

A condição genética: Síndrome do Potro Nu

O Akhal-Teke tem uma condição genética específica que todo criador precisa conhecer: a Naked Foal Syndrome (NFS) — conhecida desde 1938. Potros afetados nascem sem pelo, crina ou cauda, com dentes anômalos e distúrbios digestivos graves. A condição é sempre fatal, com a maioria dos potros morrendo nas primeiras semanas de vida.

É uma doença autossômica recessiva — para que um potro seja afetado, ambos os pais precisam ser portadores do gene defeituoso. Portadores são animais saudáveis que podem transmitir o gene sem manifestar a doença.

Um teste genético está disponível no Laboratório de Genética Veterinária da Universidade da Califórnia em Davis. Dado o pool genético reduzido da raça, a recomendação dos especialistas é testar os reprodutores e evitar cruzamentos entre dois portadores — sem necessariamente excluir todos os portadores da reprodução, o que reduziria ainda mais a diversidade genética já limitada.

O Akhal-Teke hoje

Existem atualmente entre 6.600 e 7.000 Akhal-Tekes no mundo, segundo a Akhal-Teke Association of America e a Livestock Conservancy respectivamente. Aproximadamente um terço está no Turcomenistão, outro terço na Rússia, e o restante distribuído pela Europa, América do Norte, Austrália e outros países da ex-URSS.

A gestão do stud book internacional é feita pelo VNIIK — Instituto Russo de Criação de Cavalos, em Ryazan — o que é fonte de tensão diplomática permanente com o Turcomenistão, que reivindica controle sobre a raça que considera seu símbolo nacional.

Desde 1973, todos os potros precisam de tipagem sanguínea para registro no stud book. Desde 2014, um teste de DNA baseado em folículos capilares é aceito quando o DNA dos pais está arquivado.

A raça é classificada como vulnerável pela Equus Survival Trust, com entre 500 e 1.500 fêmeas em idade reprodutiva fora das regiões históricas.

Perguntas Frequentes

O Akhal-Teke é adequado para cavaleiros iniciantes? Não. É uma raça sensível, inteligente e de temperamento independente — descrita consistentemente nas fontes como adequada apenas para cavaleiros experientes. Tende a se apegar a um único cavaleiro e a dar o melhor de si quando confia em quem o monta. Para o cavaleiro certo, é descrito como um parceiro excepcional.

O brilho metálico da pelagem é real ou é fotografia editada? É real, mas varia entre os animais. A estrutura do pelo do Akhal-Teke redireciona a luz de forma diferente do pelo de outras raças, criando um reflexo metálico visível especialmente sob luz direta. Nas pelagens douradas, o efeito pode ser impressionante ao vivo. O brilho varia significativamente entre os indivíduos da raça.

Qual a relação do Akhal-Teke com o Puro Sangue Inglês? É uma questão debatida. O Byerly Turk — um dos três garanhões fundadores do Thoroughbred — pode ter sido um Akhal-Teke ou um Turcoman. Se confirmado, o Akhal-Teke teria contribuído indiretamente para a criação do Cavalo Árabe e do Thoroughbred. Ironicamente, cruzamentos com Puro Sangue Inglês no século XX foram banidos do stud book após a cavalgada de 1935 provar que os puros eram mais resistentes que os cruzados.

O Akhal-Teke existe no Brasil? Em números muito pequenos. Não há criação estabelecida no país, mas a raça é importada ocasionalmente por entusiastas. A Equus Survival Trust classifica a população fora das regiões históricas como vulnerável, o que torna qualquer criação fora do eixo Turcomenistão-Rússia bem-vinda para a preservação genética da raça.

Os números da cavalgada de 1935 batem entre as fontes? Não completamente. A distância total é citada entre 4.000 e 4.300 quilômetros dependendo da fonte consultada, e o trecho de deserto sem água varia entre 362 e 410 quilômetros. O número de dias (84) e o resultado — puros em melhor condição que cruzados — são consistentes em todas as fontes.


Fontes:

  • Akhal-Teke Association of America — padrão racial, cores, linhas e condições genéticas: https://akhal-teke.org/the-breed/
  • Horse Illustrated — cavalgada de 1935 com dados precisos (2.500 milhas / 225 milhas de deserto), garanhão Absent: https://www.horseillustrated.com/akhal-teke/
  • Livestock Conservancy — número atual de animais (~7.000): https://livestockconservancy.org/akhal-teke/
  • Wikipedia (inglês) — história, características e uso: https://en.wikipedia.org/wiki/Akhal-Teke
  • Wikipedia (francês) — história detalhada, era soviética e cultura turcomana: https://fr.wikipedia.org/wiki/Akhal-Tek%C3%A9
  • Horseyhooves — grafia "Absent", dados da cavalgada e Geldy Kyarizov: https://horseyhooves.com/akhal-teke-horse/
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.