O cavalo lavradeiro é uma raça equina feral brasileira, única no país, que vive em manadas soltas no lavrado de Roraima desde o século XVIII. Descendente de equinos ibéricos introduzidos pelos colonizadores em 1789, foi moldado por séculos de seleção natural sem intervenção humana. Segundo estimativa da Embrapa com base em dados de 2016, restam cerca de 3.150 animais com características fenotípicas da raça — em declínio por mestiçagem, sem reconhecimento oficial do MAPA e sem associação de criadores.
No norte do Brasil, nas savanas abertas que os roraimenses chamam de lavrado, vivem manadas de cavalos que não pertencem a ninguém. Chegaram com os colonizadores portugueses no século XVIII, escaparam, e nunca mais voltaram à domesticação. Séculos de seleção natural em pastagens pobres, secas prolongadas e queimadas os transformaram em algo diferente do que eram. Hoje o cavalo lavradeiro é uma população feral única no Brasil — e está em perigo de extinção.
Como o lavradeiro é conhecido
O lavradeiro tem vários nomes dependendo de quem fala e onde. Em Roraima, o nome mais popular é simplesmente cavalo selvagem — aparece estampado em camisetas, ônibus interestaduais e souvenirs do estado, segundo comunicado da Embrapa Roraima. Em documentos científicos da Embrapa e do INCT, aparece como cavalo-lavrador ou Cavalo de Comportamento Selvagem de Roraima. O pesquisador Ramayana Menezes Braga, autor do principal livro sobre a raça publicado pela Embrapa, usa o termo ecótipo Cavalo Lavradeiro — onde ecótipo significa uma população adaptada a um ecossistema específico, com características próprias, mas sem o aparato institucional que transforma um ecótipo em raça reconhecida. Internacionalmente é referenciado como Lavradeiro horse ou wild horse of Roraima em publicações científicas.
De onde veio o lavradeiro
A história do lavradeiro começa em 1789, quando colonizadores introduziram bovinos e equinos no lavrado de Roraima. Esses animais vieram principalmente do Nordeste brasileiro, por uma rota que passava pela ilha de Marajó e subia pelo baixo Amazonas. Entre eles havia equinos de origem ibérica — provavelmente Garrano, Bérbere, Sorraia e Andaluz, segundo o Documentos 65 da Embrapa (2019).
Roraima faz fronteira com a Guiana, antiga colônia inglesa, e esse contato geográfico explica a presença de sangue do Puro-Sangue Inglês na formação da raça. O Documentos 65 da Embrapa confirma que essa influência está presente na genética da população atual — produzindo um tipo de animal visivelmente diferente do tipo ibérico puro: maior, mais veloz, usado historicamente em corridas.
Em algum momento depois de 1789 — as fontes não precisam quando — parte desses animais escapou para o lavrado e formou manadas selvagens. Submetidos à seleção natural sem intervenção humana, foram eliminando os genes que não serviam para aquele ambiente. O resultado, séculos depois, é um cavalo que galopa por horas sem suplementação e se alimenta de pastagem nativa que seria insuficiente para a maioria das raças domésticas.
O que é o lavrado
O lavrado é uma savana tropical, semelhante ao cerrado, que cobre grande parte do estado de Roraima. A vegetação é rasteira e pouco nutritiva. No período seco, as queimadas são frequentes. É um ambiente que a maior parte das raças equinas não aguentaria sem manejo intensivo — e foi exatamente nele que o lavradeiro se formou.
Raças parecidas surgiram em outros biomas brasileiros pelo mesmo processo: o Pantaneiro no Pantanal, o Nordestino na caatinga, o Campeiro no pampa gaúcho, o Marajoara na ilha de Marajó, o Baixadeiro no Maranhão. Cada um deles é o resultado de cavalos ibéricos que chegaram com a colonização e foram moldados pelo ambiente onde viveram.
Como é o lavradeiro
O lavradeiro é um cavalo de porte pequeno a médio, construído pela seleção natural — não por criadores. As medidas documentadas pelo Documentos 65 da Embrapa são:
Machos (altura na cernelha): média de 1,37 m, variando de 1,30 m a 1,48 m.
Fêmeas (altura na cernelha): média de 1,35 m, variando de 1,25 m a 1,45 m.
Nota: um segundo levantamento da mesma publicação aponta 1,38 m para machos e 1,31 m para fêmeas — diferença que reflete a variabilidade da população, ainda sem padrão racial fixado.
A cabeça é relativamente pesada, triangular vista de frente, com perfil reto ou levemente côncavo e ganachas fortes. O pescoço é piramidal, com crina larga de pelos grossos e ondulados. O dorso e o lombo são curtos. A cauda tem inserção alta e pelos abundantes, longos e ondulados — uma das marcas mais reconhecíveis da raça. As pelagens mais comuns são tordilha, castanha, baia e alazã.
Existem, na prática, dois tipos dentro da população: o tipo ibérico, de menor porte, usado na lida com o gado; e o tipo com maior influência do Puro-Sangue Inglês, maior e mais veloz, historicamente associado a corridas. Essa divisão não é formal — é uma observação documentada pela Embrapa sobre a variabilidade do grupo.
Adaptações que a seleção natural produziu
A Embrapa pesquisa o lavradeiro desde a década de 1980. O dado que mais intriga os pesquisadores é o desempenho físico: segundo comunicado da Embrapa Roraima, o lavradeiro consegue manter velocidade de até 60 km/h por 30 minutos alimentando-se apenas do capim do lavrado — conhecido popularmente como "fura-bucho" por sua baixa qualidade nutricional. É um desempenho que raças domésticas convencionais dificilmente conseguiriam nas mesmas condições, segundo a Embrapa.
As principais adaptações documentadas pela Embrapa são:
- Baixa exigência nutricional: alimenta-se de pastagem nativa sem suplementação, incluindo o "fura-bucho", capim de baixo valor proteico.
- Velocidade e resistência: capaz de correr a até 60 km/h por longos períodos alimentando-se apenas da vegetação nativa do lavrado.
- Fertilidade acelerada: as fêmeas entram em cio entre 7 e 10 dias após o parto — chamado de "cio do potro" —, o que permite produzir uma cria por ano.
- Tolerância a doenças: apresenta tolerância à Anemia Infecciosa Equina (AIE) e à Encefalomielite Equina. O índice de incidência da AIE chega a 50%, mas a maioria dos animais não demonstra os sintomas típicos — fenômeno que os pesquisadores da Embrapa estão estudando.
- Suscetibilidade ao carrapato: apesar das tolerâncias, o lavradeiro é suscetível ao carrapato Dermacentor nitens, parasita que representa um desafio sanitário constante.
Um estudo genético realizado em 1994, com 48 animais, confirmou a natureza multirracial do lavradeiro e sua variabilidade genética. A Embrapa aponta que essa análise precisa ser atualizada — os dados de quase 30 anos atrás não refletem o estado atual da população.
A situação atual: números em queda
Em 2016, Roraima tinha 31.943 equinos registrados. Desse total, cerca de 21.000 viviam em criação extensiva na savana. A estimativa da Embrapa é que apenas 15% desses animais — cerca de 3.150 — poderiam ser classificados fenotipicamente como lavradeiro. O restante já é mestiço. Segundo levantamento da FAO citado pelo pesquisador Ramayana Braga da Embrapa, essa população está classificada em perigo de extinção.
A Embrapa mantém um Núcleo de Conservação na Fazenda Resolução, no município de Amajari, a cerca de 170 km de Boa Vista, com 43 animais. Outros seis garanhões foram transferidos para a Fazenda Água Boa para adaptação e manejo, conforme o portal da Embrapa.
Os criadores tradicionais que mantinham o lavradeiro em suas fazendas estão desaparecendo. A pressão econômica para converter pastagens em lavouras de grãos ou para substituir o gado por Nelore reduz o espaço do lavradeiro. As demarcações das terras indígenas Raposa Serra do Sol e São Marcos, onde parte das manadas vivia, também afetaram a população. E a motocicleta substituiu o cavalo em boa parte do trabalho de campo nas fazendas menores.
O resultado é uma população em declínio, sem associação de criadores, sem registro genealógico e sem plano formal de conservação.
Por que não tem reconhecimento oficial
Para o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) reconhecer uma raça equina, é necessário que exista uma associação de criadores que estabeleça um padrão racial e mantenha um registro genealógico. O lavradeiro não tem nenhum dos dois.
O Documentos 65 da Embrapa identifica a criação de uma associação como a estratégia mais urgente para a conservação da raça — sem ela, não há reconhecimento, não há registro, e não há como organizar a seleção para preservar as características do tipo original.
O contraste com o Cavalo Pantaneiro é direto: a Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Pantaneiro (ABCCP) foi criada em 1972 e obteve reconhecimento do MAPA, o que permitiu organizar o registro e estruturar a seleção. O lavradeiro está décadas atrás nesse processo — se é que o processo algum dia começará.
O que pode salvar a raça
O Documentos 65 da Embrapa apresenta um diagnóstico claro com estratégias prioritárias. A primeira é criar uma associação de criadores capaz de estabelecer um padrão racial e iniciar o registro genealógico. A segunda é um programa estadual de conservação com incentivos e subsídios para os criadores que mantiverem animais com características do tipo lavradeiro. A terceira é ampliar os estudos — genética atualizada, avaliação de funcionalidade, levantamento do sistema de produção.
O lavradeiro tem características que justificam o esforço: é um animal adaptado a um dos ambientes mais difíceis do Brasil, com resistência a doenças que destroem plantéis inteiros de raças comerciais, e com valor genético que a Embrapa considera significativo. O que falta não é argumento para conservá-lo — é estrutura para fazer isso antes que a mestiçagem irreversível torne o esforço inútil.
Perguntas Frequentes
O cavalo lavradeiro é selvagem ou doméstico?
É um cavalo feral — descende de animais domésticos que escaparam e voltaram à vida selvagem. Biologicamente é a mesma espécie que qualquer cavalo doméstico, mas vive sem intervenção humana há séculos. Por isso os pesquisadores preferem o termo "asselvajado" a "selvagem": ele não é uma espécie selvagem original, é uma espécie doméstica que voltou ao estado livre.
O lavradeiro é a mesma coisa que o cavalo pantaneiro?
Não. São raças distintas, formadas em biomas diferentes por processos parecidos — cavalos ibéricos que chegaram com a colonização e foram moldados pelo ambiente. O pantaneiro foi reconhecido pelo MAPA em 1972 e tem associação de criadores. O lavradeiro ainda não tem nenhum dos dois.
Quantos cavalos lavradeiros existem hoje?
A estimativa da Embrapa, com base em dados de 2016, é de cerca de 3.150 animais com características fenotípicas do lavradeiro em Roraima. Segundo levantamento da FAO citado pelo pesquisador Ramayana Braga da Embrapa, essa população está classificada em perigo de extinção. O número está em queda por mestiçagem, perda de habitat e abandono da criação tradicional.
Por que a raça não tem reconhecimento oficial do governo?
Porque não existe associação de criadores com padrão racial estabelecido nem registro genealógico — requisitos do MAPA para reconhecer uma raça equina.
O lavradeiro pode ser domesticado?
Sim. Os animais capturados podem ser domados, e os criadores tradicionais de Roraima usam exemplares lavradeiros para manejo de gado. O tipo com maior influência do Puro-Sangue Inglês é historicamente associado a corridas na região.
Por que o lavradeiro consegue correr tão rápido comendo tão pouco?
É uma das perguntas que mais intriga os pesquisadores da Embrapa. A resposta está na seleção natural de séculos: os animais que não conseguiam sobreviver com a pastagem nativa de baixo valor nutritivo simplesmente morreram sem deixar descendentes. Os que ficaram são os que desenvolveram metabolismo eficiente o suficiente para converter o "fura-bucho" em energia de alto desempenho. É genética construída pelo ambiente, não por criadores.
Fontes:
- Embrapa. Cavalo Lavradeiro: Aspectos Históricos, Situação Atual, Desafios e Possíveis Soluções para sua Conservação. Documentos 65, ISSN 0104-9046. Maio de 2019. https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1111745/1/DOCN65.pdf
- Embrapa Roraima. Pesquisa investe na conservação do cavalo lavradeiro de Roraima (comunicado institucional — dados de velocidade 60 km/h, núcleo de conservação, "cavalo selvagem"). https://www.embrapa.br/en/busca-de-noticias/-/noticia/18117078/pesquisa-investe-na-conservacao-do-cavalo-lavradeiro-de-roraima
- Braga, Ramayana Menezes. Cavalo lavradeiro em Roraima: aspectos históricos, ecológicos e de conservação. Embrapa. https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/688378/cavalo-lavradeiro-em-roraima-aspectos-historicos-ecologicos-e-de-conservacao
- Santos, Fernanda Carlini Cunha dos; Braga, Ramayana Menezes. Como Identificar o Cavalo Lavradeiro. UFRR
- Wikipedia — Cavalo-lavradeiro (dados de velocidade confirmados): https://pt.wikipedia.org/wiki/Cavalo-lavradeiro