Cavalos e Suas Origens: Gidran — A Raça Húngara que Quase Desapareceu do Mundo

O Gidran é uma raça húngara criada em Mezőhegyes desde 1816, com medalha olímpica em 1928. História de quase extinção e renascimento após o retorno ao haras.

Cavalos e Suas Origens: Gidran — A Raça Húngara que Quase Desapareceu do Mundo
Gidran alazão — a pelagem castanho-avermelhada é obrigatória para registro oficial na raça

O Gidran — em húngaro Gidrán — é uma raça equina húngara de tipo Anglo-Árabe criada desde 1816 no haras de Mezőhegyes, na Grande Planície Húngara. Descendente direto do garanhão árabe Gidran Senior, da linhagem Siglavy, tem pelagem exclusivamente alazã e altura entre 160 e 173 cm. Quase extinto duas vezes — após a invasão romena de 1919 e após a Segunda Guerra Mundial — conta hoje com mais de 500 éguas registradas na Hungria, o maior número em mais de dois séculos de existência. É classificado como raça em risco pela FAO.

Se você perguntar para a maioria das pessoas qual é a raça de cavalo mais rara do mundo, provavelmente vai ouvir respostas como Camargue, Akhal-Teke ou Przewalski. Poucos vão mencionar o Gidran — e é exatamente por isso que este artigo existe.

O Cavalo Gidran é uma raça húngara que esteve no topo do esporte equestre europeu, serviu na cavalaria imperial austro-húngara e quase desapareceu da face da Terra não uma, mas duas vezes. Hoje, com mais de 500 éguas registradas na Hungria — o maior número em toda a história da raça — o Gidran vive um momento de renascimento que seus criadores esperaram décadas para ver.

Como o Gidran é conhecido

Em húngaro, o nome oficial é Gidrán — com acento. Em inglês e na maioria das línguas europeias aparece como Gidran sem acento. Em literatura científica internacional é frequentemente referenciado como Hungarian Anglo-Arab ou Hungarian Gidran para distingui-lo de outros Anglo-Árabes. O nome vem diretamente do garanhão fundador: Gidran Senior, da linhagem árabe Siglavy Gidran. A raça não tem apelidos populares — é sempre chamada pelo nome do fundador.

O começo de tudo: um garanhão árabe vindo do deserto

A história do Gidran começa em 1816, quando um garanhão árabe nascido em 1811, medindo apenas 157 centímetros de altura, foi adquirido pelo haras de Bábolna, na Hungria. Ele vinha da região de Nedjed — hoje Arábia Saudita — e pertencia à linhagem Siglavy Gidran. Esse animal ficou conhecido simplesmente como Gidran Senior, e daria nome a toda uma raça.

Para entender o que aconteceu a seguir, é preciso conhecer o contexto. O haras de Mezőhegyes havia sido fundado por decreto imperial em 1784, na Grande Planície Húngara. Era um dos maiores e mais importantes centros de criação de cavalos do Império Austro-Húngaro, responsável por desenvolver animais para a cavalaria militar, o transporte e o esporte. Ali, ao longo de décadas, três raças principais foram desenvolvidas: o Nonius, o Furioso-North Star e o Gidran.

Gidran Senior foi inicialmente levado a Bábolna, onde cobriu éguas de diversas origens — árabes, turcas, espanholas, napolitanas. Teve seis filhos que se tornariam os garanhões fundadores da raça em Mezőhegyes: Gidran I, II, III, IV (nascidos em 1818, transferidos em 1823) e Gidran V e VI (nascidos em 1820, transferidos em 1825). Juntos, esses seis filhos deixaram 66 descendentes na primeira geração.

As quatro fases que construíram uma raça

O desenvolvimento do Gidran em Mezőhegyes não aconteceu de uma vez. Foi um processo cuidadoso, que os criadores da época dividiram em quatro fases bem distintas.

A primeira fase (até 1830) foi a dos filhos diretos de Gidran Senior. Os seis garanhões fundadores estabeleceram as bases genéticas da raça e produziram as primeiras 66 crias registradas.

A segunda fase (1830–1838) foi dominada pelos netos de Gidran Senior. O mais importante deles foi Gidran VII — filho de Gidran II, nascido em Bábolna em 1825 — que produziu 93 descendentes em oito anos de cobertas. Outro destaque foi Gidran VIII, filho de Gidran VI, com 111 descendentes. Ao final dessa fase, a maioria dos animais já apresentava a pelagem amarelo-castanha característica, o que permitiu organizar um grupo exclusivo de nove éguas dessa coloração.

A terceira fase (1838–1854) foi marcada pelos bisnetos de Gidran Senior. Cinco deles cobriram o plantel de éguas e ajudaram a definir o papel do haras nº 9 de Mezőhegyes — dedicado exclusivamente a cavalos de pelagem amarela. O grande destaque foi Gidran XIII, que atuou como reprodutor por 11 anos e deixou 100 descendentes. A fase terminou com 65 éguas selecionadas para o plantel e mais 29 classificadas como éguas-mãe de criação.

A quarta fase (1855–1919) foi a mais transformadora. Em 1855, o Tenente-General Príncipe Joseph Lobkowitz assumiu o comando do haras e tomou duas decisões históricas: mandou registrar o plantel em um stud book próprio e ordenou que as éguas fossem organizadas por origem. Naquele momento, nasceu oficialmente a raça independente Gidran de Mezőhegyes.

A virada: quando o sangue inglês entrou na equação

Durante as três primeiras fases de desenvolvimento, o Gidran era essencialmente um cavalo de herança árabe. Mas ao longo de gerações de cruzamentos internos, os animais foram crescendo em tamanho e ganhando massa — o que trouxe junto alguns problemas de conformação: cabeça e pescoço muito altos, ombros retos, andamentos rígidos e entrecortados.

Em 1861, o novo comandante do haras, Tenente-General Franz Ritter, tomou uma decisão ousada: restringiu o uso de garanhões árabes e passou a introduzir garanhões Puro Sangue Inglês no plantel Gidran. O objetivo era melhorar a estrutura, aumentar a elegância e corrigir os defeitos de conformação acumulados.

Funcionou. Do final do século XIX até a Primeira Guerra Mundial, o Gidran se transformou em um cavalo Anglo-Árabe refinado e atlético. O objetivo de criação passou a ser explicitamente o de desenvolver um "caráter Anglo-Árabe elegante" — e foi exatamente isso que o Mezőhegyes entregou.

No auge da raça, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, havia 16 famílias de éguas e três linhas genealógicas bem estabelecidas. O plantel girava em torno de 100 éguas reprodutoras.

Glória e tragédia: o Gidran nas guerras

A história do Gidran no século XX é uma sucessão de momentos de glória interrompidos por tragédias.

A Primeira Guerra Mundial praticamente não causou perdas diretas no plantel de Mezőhegyes. O problema veio depois: em 2 de maio de 1919, o exército romeno marchou sobre o haras. Entre o outono de 1919 e março de 1920, 186 cavalos Gidran foram levados — 74 éguas, 4 garanhões, 4 candidatos a reprodutores e o restante em potros e potrancas de várias idades. Em 20 de março de 1920, restavam apenas 13 éguas disponíveis para reprodução.

Foi um golpe devastador. Mas Mezőhegyes não desistiu.

Com prioridade absoluta na qualidade dos animais, o haras trabalhou ao longo dos anos 1920 e 1930 para reconstruir o plantel. O resultado foi notável: em 1934, o especialista alemão Gustav Rau descreveu a recuperação das raças de Mezőhegyes — incluindo o Gidran — como um "milagre hipológico". Em 1944, havia novamente 90 éguas reprodutoras no plantel.

A Segunda Guerra Mundial destruiu tudo de novo. Em 1948, apenas 28 éguas conseguiram retornar ao seu lar original, junto com nove garanhões de valor.

Resultados esportivos e o dado olímpico de 1928

Os resultados esportivos do Gidran ao longo do século XX são notáveis para uma raça tão pequena em número.

Nos anos 1920, o Bíbor Gidran saltou o riacho Rákos com 10 metros de largura, estabelecendo o recorde mundial não oficial de salto em distância.

Em 1928, nos Jogos Olímpicos de Amsterdã, o haras nacional húngaro de Szilvásvárad afirma que "esta raça venceu a medalha de ouro no salto (Elliot)". Esta afirmação merece qualificação: os registros olímpicos oficiais atribuem o ouro no salto individual ao Capitão František Ventura, da Tchecoslováquia, montando um cavalo chamado Eliot — não húngaro. A hipótese dos húngaros é que o cavalo Eliot era de origem Gidran, possivelmente adquirido de haras húngaros, o que era comum na época. Essa relação não está confirmada nas fontes primárias olímpicas disponíveis.

Em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, o Gidran Magyaremlék ficou em 10º lugar na competição de salto.

Nos anos 1930, a égua Legszebb, montada por Pauly Hartmann, foi 5ª no Grande Prêmio Olímpico de adestramento em Aachen e conquistou ao longo da carreira 17 primeiros, 17 segundos e 9 terceiros lugares nas competições nacionais.

Após a Segunda Guerra Mundial, mesmo com o plantel reduzido, os resultados continuaram:

  • Ragyogó venceu o Grande Prêmio Individual da Associação Internacional de Equitação Militar em Viena, em 1969
  • Gidran Sóhaj venceu o Campeonato Mundial de Cavalos Jovens em 2003 e o campo-a-través em 2004
  • Gidran Nimfa tornou-se o único cavalo húngaro qualificado como militar três estrelas da FEI
  • Gidran Hűtlen foi o único cavalo húngaro a se qualificar para os Jogos Olímpicos de Sydney no concurso completo
  • Gidran-44 (Mytok) competiu em percursos de salto por 10 anos seguidos e saltou 200 centímetros em teste de alto

A quase extinção definitiva: os anos 1958–1990

Com a mecanização da agricultura e o fim da cavalaria militar, o Gidran perdeu sua razão de ser funcional. Em 1958, 32 éguas pertencentes a 9 famílias de Mezőhegyes foram transferidas para Sütvény, sem qualquer plano de preservação genética. Em 1961 e 1962, registros da época mencionavam apenas 16 Gidrans originais e 12 éguas do tipo Gidran.

O resgate veio de um grupo pequeno de pessoas comprometidas com a raça. Um programa de reconstrução foi iniciado em Borodpuszta, com 20 éguas de origem Gidran compradas de criadores particulares. O plantel foi transferido mais duas vezes — para Szántódpuszta em 1984 e para Marócpuszta em setembro de 1988. Naquele momento, havia 75 éguas de propriedade estatal e nenhum Gidran em mãos privadas.

A virada aconteceu nos anos 1990. Criadores particulares começaram a comprar Gidrans e iniciaram a importação de animais do haras de Radauți, na Romênia. Com 61 éguas e mais de uma dezena de garanhões importados, a diversidade genética da raça foi restaurada.

O que a ciência descobriu sobre o Gidran

Em 2016, pesquisadores húngaros publicaram o primeiro estudo genético completo sobre o Gidran, no PeerJ. Analisaram o DNA mitocondrial de 260 éguas, representando as 31 famílias maternas da raça.

O que encontraram foi o oposto do esperado: o Gidran possui alta diversidade genética. Foram identificados 24 haplótipos no marcador CYTB e 32 no D-loop — números comparáveis aos encontrados em raças muito maiores, como o Lusitano, o Lipizzano e o Árabe puro. Seis dos haplótipos eram completamente novos para a ciência.

Na prática isso significa que, apesar de todos os gargalos genéticos impostos pelas guerras e pelas políticas equivocadas, o Gidran manteve uma diversidade interna que melhora as perspectivas de longo prazo para a preservação da raça.

O estudo também confirmou que o stud book estava bem gerido: de 260 éguas analisadas, apenas 7 (2,89%) apresentaram inconsistências entre os registros genealógicos e os dados genéticos.

O renascimento: de volta a Mezőhegyes

Em 2016, uma lei húngara criou a base legal para o estabelecimento do Haras Nacional de Mezőhegyes com missão específica de preservar o Gidran. Em outubro de 2017, após cinquenta anos de ausência, quase 100 cavalos Gidran retornaram ao haras onde a raça havia nascido.

Em 2019, foi fundada a Associação Húngara de Criadores de Cavalos Gidran. Desde janeiro de 2020, a associação gerencia o stud book e os programas de reprodução de forma independente.

Em janeiro de 2023, o número de éguas registradas ultrapassou 500 — o maior número já registrado em mais de dois séculos de existência da raça.

Como é o Gidran

O Gidran combina o refinamento e a expressividade do Árabe — cabeça pequena e elegante, olhos grandes e vivos, pescoço arqueado — com a estrutura do Puro Sangue Inglês: peito largo, garupa musculosa, membros bem proporcionados.

Altura na cernelha: 160 a 173 cm.

Pelagem: exclusivamente alazã para registro no stud book oficial.

Temperamento: energia e inteligência elevadas. Aprende rápido, forma vínculos com seus tratadores e responde bem a métodos consistentes de treinamento. Não é indicado para iniciantes — exige um cavaleiro experiente. Quando bem conduzido, é um parceiro esportivo de alto nível em salto, concurso completo, enduro, atrelagem e adestramento.

Perguntas Frequentes

O Gidran existe no Brasil? Não há registros de exemplares puros no Brasil. A raça é extremamente rara mesmo na Europa, com a maioria concentrada na Hungria.

Qual a diferença entre o Gidran e um Anglo-Árabe comum? O Gidran é uma linhagem específica de Anglo-Árabe com genealogia documentada desde 1816, rastreável até Gidran Senior. Tem stud book fechado e exige pelagem exclusivamente alazã para registro. Um Anglo-Árabe comum pode ter qualquer combinação das duas raças, sem essas restrições.

O Gidran é adequado para iniciantes? Não. É um cavalo de sangue quente com energia e reatividade elevadas. Funciona bem com cavaleiros experientes que saibam trabalhar com consistência e paciência.

Quanto custa um Gidran? A escassez é tão grande que muitos criadores simplesmente não vendem seus animais, priorizando a reprodução. Quando negociados na Europa, exemplares registrados podem custar entre €5.000 e €30.000 ou mais, dependendo da linhagem e do treinamento.

O Gidran realmente ganhou ouro olímpico em 1928? É uma afirmação do haras nacional húngaro de Szilvásvárad, mas não confirmada pelos registros olímpicos. O ouro no salto individual em Amsterdã 1928 foi para o Capitão František Ventura, da Tchecoslováquia, com o cavalo Eliot. Os húngaros afirmam que Eliot era de origem Gidran — hipótese plausível, já que a compra de cavalos húngaros por outros países era comum na época, mas sem confirmação documental disponível.

Fontes:

  • Associação Húngara de Criadores de Cavalos Gidran — stud book oficial e história da raça
  • Haras Nacional de Mezőhegyes — história e dados de criação
  • Estudo genético publicado no PeerJ (2016): Mihók et al. — análise mitocondrial de 260 éguas Gidran representando 31 famílias maternas
  • FAO DAD-IS — Domestic Animal Diversity Information System — status de conservação
  • Wikipedia — Equestrian at the 1928 Summer Olympics (ouro para František Ventura / Eliot, Tchecoslováquia): https://en.wikipedia.org/wiki/Equestrian_at_the_1928_Summer_Olympics_%E2%80%93_Individual_jumping
  • Haras de Szilvásvárad — afirmação sobre Elliot como Gidran húngaro (fonte primária húngara, não confirmada por registros olímpicos)
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.