Cavalos e Suas Origens: Dales Pony — O Pônei das Minas de Chumbo que Virou um dos Melhores Pôneis de Trabalho da Grã-Bretanha

O Dales Pony trabalhou nas minas dos Pennines por séculos e serviu nas duas guerras mundiais. Uma das raças mais resistentes da Grã-Bretanha.

Cavalos e Suas Origens: Dales Pony — O Pônei das Minas de Chumbo que Virou um dos Melhores Pôneis de Trabalho da Grã-Bretanha
Dales Pony preto em apresentação em mão — a ação alta e reta dos membros é uma das características mais valorizadas no padrão racial da raça. Foto: The Dales Pony Society

O Dales Pony é uma raça equina nativa das encostas orientais dos Pennines, no norte da Inglaterra, desenvolvida ao longo de séculos nas minas de chumbo da região. É o maior dos cinco pôneis nativos das montanhas e moorlands do Reino Unido, reconhecido pela solidez, resistência e pela ação alta dos membros. A raça é classificada como "priority" — categoria de maior risco — pelo Rare Breeds Survival Trust (RBST) desde 2015, com menos de 300 éguas reprodutoras no Reino Unido e população global estimada em menos de 500 animais pela Livestock Conservancy americana (2025).

Nas colinas do norte da Inglaterra, entre os picos de Derbyshire e as colinas Cheviot perto da fronteira escocesa, havia um trabalho que nunca parava. As minas de chumbo dos Pennines precisavam de animais que carregassem o mineral extraído das alturas até os portos da costa nordeste — dezenas de quilômetros por terreno acidentado, com carga de até 110 quilos, em grupos de 9 a 20 animais, semana após semana.

O animal que fez esse trabalho por séculos foi o Dales Pony. E foi exatamente esse trabalho — duro, constante e sem concessões — que moldou uma das raças mais resistentes e versáteis que a Grã-Bretanha já produziu.

Como o Dales Pony é conhecido

Em inglês, a raça é chamada de Dales pony ou Dales Pony — ambas as grafias são usadas, com maiúscula na versão oficial da Dales Pony Society. O nome histórico dos grupos de trabalho nas minas era Jagger Galloways — equipes de 9 a 20 pôneis que transportavam chumbo pelos Pennines. O animal em si era chamado de Galloway antes de se estabelecer como tipo distinto. A Dales Pony Society usa o termo The Great All Rounder — "o grande versátil" — como slogan oficial da raça, refletindo a aptidão para múltiplas atividades.

A origem nas minas de chumbo

O Dales Pony é nativo dos vales superiores das encostas orientais dos Pennines — a espinha dorsal da Inglaterra. A indústria de mineração de chumbo da região floresceu desde os tempos romanos até meados do século XIX, e durante todo esse período o Dales foi o motor que a mantinha funcionando.

A lógica era simples e exigente. As minas ficavam nas alturas. Os locais de lavagem precisavam estar perto de rios. As fundições ficavam em colinas para aproveitar o vento. E tudo isso precisava ser conectado por animais capazes de cobrir esse terreno com carga pesada, em qualquer clima, sem falhar.

Os pontos favoritos de criação sempre foram os vales superiores dos rios Tyne, Wear, Allen, Tees e Swale. Os animais trabalhavam em grupos chamados de Jagger Galloways — equipes de 9 a 20 pôneis, soltos, guiados por um único homem montado. Cada animal carregava duas barras de chumbo — cerca de 110 quilos — e cobria até 160 quilômetros por semana.

Como o Dales foi construído

A raça não nasceu de um decreto imperial nem da visão de um único criador. Foi moldada ao longo de gerações pela seleção de quem precisava de resultados concretos.

No final do século XVII, o Scotch Galloway era considerado o melhor pônei para trabalho de carga rápida. Éguas nativas cruzavam com garanhões Galloway nas colinas, e os animais maiores, mais fortes e mais ativos eram selecionados para o trabalho nas minas. Com o tempo, os Galloways negros das manadas mistas foram superando os escoceses importados — e o Dales Pony foi emergindo como tipo distinto.

No final do século XVIII, a melhoria das estradas criou demanda por animais mais rápidos para as Mala-Postas e Diligências. Os Norfolk Cobs — especialmente a família Shales, cujo fundador descendia do árabe Darley Arabian — foram cruzados com as éguas Dales para adicionar velocidade e ação ao trote. Pelo menos uma linha de volta ao Norfolk Shales pode ser encontrada nos pedigrees da maioria dos Dales Ponies registrados hoje.

Na década de 1860, um garanhão trotador galês chamado Comet chegou ao norte da Inglaterra para competir nas corridas de trote. Ficou por dez anos, venceu consistentemente e foi amplamente usado como reprodutor. Seu filho Comet II e netos como Teasdale Comet e Daddy's Lad deixaram marcas permanentes na raça.

Muito mais que um animal de carga

O Dales Pony era um animal completo muito antes de esse termo existir no vocabulário equestre.

Nas fazendas dos vales, fazia tudo: puxava uma tonelada numa carroça, servia como pônei de pastoreio nas colinas, carregava fardos de feno de até 75 quilos — às vezes com um cavaleiro em cima — em neve profunda. Um par de Dales lavrava campos ou operava uma ceifadeira. Com seu trote rápido, levava o fazendeiro ao mercado com elegância e ainda aguentava um dia de caça, sendo um saltador disposto e hábil.

Um relatório do Capitão A. Campbell para o Ministério da Agricultura britânico, após inspeção da raça, concluiu com uma observação que os criadores repetem até hoje: "Sua raça tem um ativo superb, presente em cada exemplar que vi — os pés mais perfeitos das Ilhas Britânicas."

As guerras e a quase extinção

O início do século XX trouxe uma ameaça diferente. A grande demanda por animais para trabalho urbano e por cavalos de artilharia levou muitos criadores a cruzar éguas Dales com garanhões Clydesdale. O produto era lucrativo. Mas o Dales puro estava desaparecendo.

Em 1916, foi fundada a Dales Pony Improvement Society e o stud book foi aberto — exatamente a tempo de documentar o que restava da raça pura.

Em 1923 e 1924, o Exército britânico comprou mais de 200 Dales Ponies. O comprador, General Bate, tinha critérios rígidos: entre 142 e 147 cm de altura, pelo menos 5 anos, pesando cerca de 450 quilos, com 173 cm de perímetro torácico e capaz de carregar 133 quilos numa montanha. Os Dales atenderam a todos esses critérios. Serviram nas duas guerras mundiais.

A Segunda Guerra foi, paradoxalmente, um momento de valorização da raça em casa. Com o racionamento de combustível, os Dales tornaram-se essenciais para o funcionamento das fazendas. Os criadores que se recusaram a cruzar com garanhões de tiro mantiveram a raça pura — e o Dales saiu da guerra em boa situação.

O golpe veio no final dos anos 1950: a mecanização tornou o trabalho pesado desses pôneis desnecessário. As registrações caíram, as subvenções foram cortadas e a raça entrou em colapso silencioso.

Em 1964, a Sociedade foi reorganizada — o "Improvement" foi retirado do nome — e um registro de graduação foi criado para identificar e registrar animais de qualidade que estavam fora do stud book. Quando esse registro foi fechado em 1971, o número de pôneis registrados havia crescido consistentemente e a qualidade era excelente.

As características do Dales

Altura na cernelha: 142 a 147 cm — o maior dos cinco pôneis nativos de montanha e moorland do Reino Unido.

Peso: 320 a 400 kg.

Cores aceitas: preto predominante, com alguns castanhos, baios, tordilhos e, raramente, rosilhos. Marcações brancas aceitas com restrições — apenas estrela ou mancha no focinho, e branco até os boletos nas patas traseiras. Animais com mais branco são registrados na Seção B do stud book.

A cabeça é compacta e expressiva, com olhos vivos e alertas e orelhas levemente curvadas para dentro. O pescoço é forte e de comprimento adequado. O corpo é curto e fundo, com costelas bem arqueadas. As coxas são compridas e musculosas, os jarretes largos, planos e bem posicionados.

O que mais chama atenção num Dales em movimento é a ação: alta, reta e com grande energia. Os joelhos e jarretes se levantam com impulso real, os membros traseiros se flexionam bem sob o corpo. Não é apenas decorativo — é o resultado direto de séculos selecionando animais que precisavam se mover bem em terreno difícil com carga pesada.

Uma especificação técnica que consta no padrão racial: o osso das canelas mede entre 20 e 23 cm de circunferência. A medida existe porque a raça foi criada para carregar peso — 20 cm de osso suportam até 450 quilos, bem dentro do que o trabalho nas minas exigia.

A crina, cauda e franja são fartíssimas, longas e sedosas. O trem posterior tem franja abundante cobrindo os cascos. Os cascos em si são grandes, redondos e abertos nos talões.

A condição genética: FIS

Desde 2012, todos os garanhões licenciados precisam ser testados para a Foal Immunodeficiency Syndrome (FIS) — condição genética hereditária conhecida desde os anos 1970, compartilhada com o Fell Pony. Potros afetados nascem com sistema imunológico comprometido e geralmente morrem nas primeiras semanas de vida por infecções oportunistas.

É uma doença autossômica recessiva — dois portadores precisam ser cruzados para produzir um potro afetado. Portadores são animais saudáveis que transmitem o gene sem manifestar a condição. O teste está disponível para éguas através da Dales Pony Society. Dado o tamanho pequeno da população, a recomendação é testar os reprodutores e evitar cruzamentos entre dois portadores — sem excluir todos os portadores da reprodução, o que reduziria ainda mais a diversidade genética já limitada.

O Dales hoje — situação crítica

Em 2015, o RBST reclassificou o Dales Pony de "endangered" (categoria 2) para "critical" (categoria 1) — o nível mais grave de risco, indicando menos de 300 éguas reprodutoras no Reino Unido. Em 2025, a categoria foi renomeada para "priority" mas o status de risco permanece o mesmo.

A Livestock Conservancy americana também atualizou a classificação para "critical" em 2025, com menos de 200 registros anuais nos EUA e população global estimada em menos de 500 animais.

É um número pequeno para uma raça com séculos de história — mas a Dales Pony Society trabalha ativamente na conservação, com ferramentas como o SPARKS (Sistema de Planejamento de Acasalamento para Raças Raras em Risco) desenvolvido pela Universidade de Nottingham Trent, que ajuda criadores a fazer escolhas de reprodução que maximizam a diversidade genética da população.

Apesar da situação crítica em número, o Dales compete com sucesso em apresentação em mão, montado e em atrelagem. A inteligência, a resistência e a ação que o tornavam valioso nas minas continuam sendo seus maiores ativos para o esporte moderno.

Perguntas Frequentes

O Dales Pony carrega adultos sem dificuldade? Sim. O padrão racial foi construído para suportar até 133 quilos numa montanha — e o Exército britânico usou esses critérios para comprar mais de 200 animais nas décadas de 1920. Apesar de classificado como pônei pelo tamanho, é um dos animais nativos britânicos mais capazes de carregar adultos de qualquer porte.

Qual a diferença entre o Dales e o Fell Pony? São raças próximas, ambas dos Pennines, mas com histórias distintas. O Dales se desenvolveu nas encostas orientais, nas minas de chumbo. O Fell se desenvolveu nas encostas ocidentais. O Dales é geralmente maior e mais pesado, com mais osso e ação mais alta. O Fell tem mais sangue árabe e é ligeiramente mais refinado. Ambos partilham a condição genética FIS e são classificados como raças em risco crítico pelo RBST.

Por que o padrão racial especifica a medida do osso das canelas? Porque o Dales foi criado para carregar peso em terreno difícil. A medida de 20 a 23 cm de circunferência é uma garantia estrutural — 20 cm de osso suportam até 450 quilos, bem dentro do que o trabalho nas minas exigia. É uma das especificações mais concretas e funcionais de qualquer padrão racial britânico.

O Dales existe fora da Grã-Bretanha? Sim, mas em número muito pequeno. A Livestock Conservancy americana estima a população global em menos de 500 animais em 2025. Há criadores nos Estados Unidos, Alemanha e outros países europeus. O stud book internacional é mantido pela Dales Pony Society no Reino Unido — todos os animais registrados fora do país passam pelo mesmo registro britânico.

Quantos Dales Ponies existem hoje? Menos de 300 éguas reprodutoras registradas no Reino Unido, segundo o RBST (2025). A Livestock Conservancy americana estima menos de 500 animais no mundo inteiro. É uma das raças equinas nativas britânicas em situação mais crítica — mais grave do que o próprio Cleveland Bay nos piores momentos daquela raça.

Fontes:

  • Dales Pony Society — história oficial da raça: https://www.dalespony.org/history/
  • Dales Pony Society — padrão racial: https://www.dalespony.org/breed-standard/
  • Dales Pony Society — Foal Immunodeficiency Syndrome: https://www.dalespony.org/f-i-s/
  • Wikipedia — Dales Pony (classificação RBST "priority" categoria 1, 2025; Livestock Conservancy "critical" 2025, população global <500): https://en.wikipedia.org/wiki/Dales_Pony
  • Livestock Conservancy — Dales Pony: https://livestockconservancy.org/heritage-breeds/heritage-breeds-list/dales-pony/
  • Archedales e.V. — About the Dales Pony (padrão racial detalhado, dados de altura e peso): https://dales-pony.com/dales-pony-breed
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.