Cavalos e Suas Origens: Cleveland Bay — O Cavalo Inglês que a Rainha Elizabeth Salvou da Extinção

O Cleveland Bay é a raça equina mais antiga da Inglaterra, quase extinto nos anos 1960 e salvo pela Rainha Elizabeth II. Do medieval ao Palácio de Buckingham.

Cavalos e Suas Origens: Cleveland Bay — O Cavalo Inglês que a Rainha Elizabeth Salvou da Extinção
Legacy Mover, garanhão Cleveland Bay em prova de adestramento — múltiplo campeão USDF All Breeds e Campeão de Adestramento da CBHSNA. Foto: Ella Chedester Photography via Cleveland Bay Horse Society of North America

O Cleveland Bay é a raça equina mais antiga da Inglaterra — e a única raça britânica de sangue quente que não pertence ao grupo de cavalos pesados. Originário do condado de Yorkshire, desenvolvido a partir dos cavalos Chapman medievais, existe em tipo fixo desde pelo menos 1800. Descende diretamente do sangue materno do Puro Sangue Inglês e contribuiu para a formação do Oldenburg, Holstein e Hanoverian. Em 1960, havia apenas seis garanhões puros vivos no Reino Unido. Hoje a população mundial é estimada em cerca de 1.000 animais, com aproximadamente 220 a 240 puros na América do Norte — classificado como criticamente ameaçado pela Livestock Conservancy.

No início dos anos 1960, havia apenas seis garanhões Cleveland Bay puros na Inglaterra. A raça que havia carregado os comerciantes medievais pelos vales de Yorkshire, contribuído com o sangue materno para o nascimento do Puro Sangue Inglês e servido na artilharia da Primeira Guerra Mundial estava, silenciosamente, desaparecendo.

Foi então que a Rainha Elizabeth II comprou um potro.

Como o Cleveland Bay é conhecido

A raça teve três nomes ao longo da história. Na Idade Média era chamado de Chapman Horse — Cavalo do Comerciante — pelos comerciantes viajantes (chapmen) que o usavam para transportar mercadorias. No século XVII e XVIII, com o cruzamento com Thoroughbred para produzir carruagens mais rápidas, ficou conhecido como Yorkshire Coach Horse — embora tecnicamente esse seja um subgrupo cruzado, não a raça pura. O nome atual, Cleveland Bay, consolidou-se quando a cor baia e a associação com o distrito de Cleveland, no norte de Yorkshire, tornaram-se inseparáveis. Em publicações científicas internacionais aparece como Cleveland Bay horse ou simplesmente Cleveland Bay.

Uma raça sem origem conhecida

O Cleveland Bay é considerado a raça equina mais antiga da Inglaterra — e parte de sua história se perde num passado anterior aos registros escritos. Na Idade Média, no condado de Yorkshire, havia uma raça de cavalos de pernas limpas, cor baia, usados como animais de carga e transporte. Estavam lá há tanto tempo que ninguém conseguia mapear de onde vinham.

A hipótese histórica mais detalhada sobre sua origem foi desenvolvida pelo pesquisador Henry Edmunds e liga a raça a um episódio documentado da história romana: em 175 d.C., o Imperador Marco Aurélio, após vencer os Sármatas numa guerra, impôs como condição de paz o envio de 5.500 guerreiros sármatas para a Grã-Bretanha, onde guarneciram a Muralha de Adriano por mais de dois séculos.

Os Sármatas eram guerreiros montados de origem indo-iraniana. Seus cavalos eram de tipo Pártico — animais de grande porte, selecionados pela cor baia porque cascos pretos são mais resistentes e menos propensos a rachaduras, o que era crítico numa época em que os romanos não ferravam seus cavalos. Quando os romanos partiram em 410 d.C., os Sármatas ficaram. Continuaram criando seus cavalos nas colinas de Yorkshire.

É uma hipótese bem fundamentada, não uma certeza. O que a reforça é um estudo genético que identificou ligação direta entre o Cleveland Bay e o Kabardin — raça criada até hoje no Cáucaso pelos descendentes dos Sármatas. Pesquisas mais recentes da Livestock Conservancy também identificam possível ligação com cavalos Turcomanos — os mesmos ancestrais do Akhal-Teke. A origem exata da raça permanece, em parte, um enigma histórico.

O Cavalo do Comerciante

Na Idade Média, o Cleveland Bay era o cavalo de uso geral de Yorkshire. Carregava as mercadorias dos Chapmen — os comerciantes viajantes que percorriam as estradas e eram um dos poucos contatos que as comunidades isoladas das colinas tinham com o mundo exterior. Por isso, o animal ficou conhecido como Chapman Horse — o Cavalo do Comerciante.

As grandes Abadias Cistercienses de Rivaulx e Fountains, fundadas no início do século XII, também os utilizavam para agricultura e transporte. Com a dissolução dos mosteiros em 1539, as abadias viraram ruínas — mas os cavalos permaneceram, mantidos por gerações de habitantes dos Dales.

A era elizabetana trouxe as primeiras carruagens, e o Cleveland Bay mostrou-se adequado para puxá-las. Lavrava a terra, puxava carroças, levava seus donos às caçadas e ao mercado. O nome Cleveland Bay se consolidou quando a cor baia e a associação com o distrito de Cleveland, no norte de Yorkshire, se tornaram inseparáveis.

A conexão com o Puro Sangue Inglês

No início do século XVIII, chegaram à Inglaterra os garanhões orientais que fundaram o Thoroughbred: o Darley Arabian, o Byerley Turk e o Godolphin Barb. Quando os selecionadores escolheram as éguas para os cruzamentos fundadores, 70 das 78 selecionadas eram Yorkshire Galloways — o nome pelo qual o Cleveland Bay era então chamado. Essas éguas estão na origem materna do Puro Sangue Inglês moderno.

Na era vitoriana, Cleveland Bay foram cruzados com Thoroughbred para produzir o Yorkshire Coach Horse — descrito pelos entusiastas da época como o mais elegante cavalo de carruagem já visto. Mas quanto mais sangue inglês era adicionado, mais o Cleveland perdia substância: surgiam pernas finas, corpo estreito, dorso fraco. Os criadores mais experientes perceberam o risco e começaram a cruzar as éguas Yorkshire de volta com garanhões Cleveland para recuperar as qualidades originais.

A raça também foi exportada em larga escala. O Oldenburg alemão utilizou garanhões Cleveland Bay extensivamente na década de 1860. Joseph Lett, famoso negociante de Clevelands, vendia animais para Itália, Portugal, Rússia, Japão e América. Em uma ocasião, vendeu 30 cavalos para Buffalo Bill para o seu Wild West Show.

1884: a Sociedade que salvou a raça pela primeira vez

Com o desenvolvimento das ferrovias e a queda da demanda por cavalos de carruagem, o Cleveland Bay entrou em colapso na segunda metade do século XIX. Em 1884, estava à beira da extinção.

Uma série de cartas em jornais influentes como o Yorkshire Post, liderada por Alfred Pease e William Scarth Dixon, mobilizou criadores. Reuniões foram realizadas no Black Lion Hotel em Stockton, em janeiro e fevereiro de 1884. Em 23 de fevereiro daquele ano, a Cleveland Bay Horse Society foi oficialmente fundada — com James Lowther MP como primeiro presidente e William Scarth Dixon como primeiro secretário.

Ao final daquele primeiro ano, a Sociedade tinha 100 membros. Dixon assumiu a tarefa de criar o stud book, documentando retrospectivamente 567 garanhões nascidos antes de 1880. O Volume I foi publicado em setembro de 1884. O Volume II, em 1885, incluiu as éguas pela primeira vez.

A família Pease foi determinante nesse processo. Sir Joseph Whitwell Pease e seu filho Sir Alfred Pease tinham riqueza, influência política e presença pública suficientes para dar credibilidade à iniciativa. Sir Alfred permaneceu envolvido com a raça até sua morte em 1939 — mesmo após o colapso financeiro da família Pease.

A Primeira Guerra Mundial e o custo do sucesso

A recuperação do final do século XIX foi real. Milhares de Clevelands foram exportados para os Estados Unidos e para a Europa. A demanda era alta.

Mas a Primeira Guerra Mundial cobrou um preço pesado. Os Clevelands adaptaram-se bem ao papel de cavalos de artilharia e foram enviados em grande número para os campos de batalha da França. Muitos não voltaram.

Há um detalhe revelador desse período: Sir Alfred Pease, responsável por um depósito de remonta durante a guerra, observou que a maioria dos melhores cavalos para puxar canhões vinha dos Estados Unidos e do Canadá. Eram os descendentes dos Clevelands exportados nas décadas anteriores — retornando à Inglaterra para servir na guerra.

Entre as duas guerras, a raça mal se manteve. Em 1945, os números estavam severamente reduzidos.

Mulgrave Supreme e a intervenção da Rainha

Em 1960, havia apenas seis garanhões Cleveland Bay puros vivos no Reino Unido — o ponto mais baixo da história da raça. A situação era crítica.

O avô da Rainha Elizabeth II havia sido criador de Cleveland Bays na década de 1920. Em 1961, a Rainha adquiriu um potro Cleveland Bay puro chamado Mulgrave Supreme, que havia sido destinado à exportação, e o disponibilizou para cobertura pública.

O efeito foi imediato. O Cleveland Bay ganhou visibilidade entre o público inglês e os números de garanhões cresceram ao longo da década seguinte. Mulgrave Supreme tornou-se referência na raça, com descendentes competindo em diversas disciplinas. Cruzados com Cleveland Bay produziram cavalos de nível olímpico em adestramento, salto e concurso completo.

Como é o Cleveland Bay

Altura na cernelha: 163 a 173 cm (16 a 17 mãos).

Peso: 550 a 680 kg.

Cor: baia, obrigatoriamente, com pernas, crina e cauda pretas. Nenhuma mancha branca é aceita, exceto uma pequena estrela na testa. Em algumas linhagens, alguns pelos claros na crina e cauda são aceitos como marca de sangue puro.

O corpo é profundo e largo, com dorso firme, lombo musculoso, ombros inclinados e garupa longa e nivelada. As pernas são limpas — sem franjas — com osso denso. A cabeça é convexa e expressiva, com orelhas compridas. O temperamento é equilibrado, trabalhador e dócil — herança de séculos em que precisou servir como animal de carga, de tração, de caça e de guerra.

A situação atual — criticamente ameaçado

A situação do Cleveland Bay é grave e os dados são precisos. Em 1960 havia seis garanhões puros no Reino Unido. Com a intervenção da Rainha, os números subiram nas décadas seguintes — mas voltaram a cair nas décadas de 1980 e 1990 com a crise da economia agrícola britânica.

Hoje a Livestock Conservancy classifica a raça como criticamente ameaçada, com cerca de 1.000 animais puros no mundo inteiro e aproximadamente 220 a 240 puros na América do Norte. A Cleveland Bay Horse Society of North America registra atualmente cerca de 240 puros no continente americano.

Um dado genético publicado em 2020 revela a dimensão real do problema: aproximadamente 91% das linhas de garanhões e 48% das linhas maternas que existiam na raça já não estão presentes na população viva. Apenas três ancestrais determinam 50% do genoma de toda a população atual — uma estreiteza genética que coloca a raça em risco mesmo que o número de animais cresça.

A Cleveland Bay Horse Society respondeu com programas ativos de conservação, incluindo subsídio para coleta de sêmen de garanhões geneticamente valiosos e uso do sistema SPARKS para planejamento de acasalamentos que maximizem a diversidade genética.

O estudo genético que identificou ligação com o Kabardin abre uma possibilidade concreta: caso a raça chegue a um gargalo genético severo, o Kabardin poderia introduzir novas linhagens sem comprometer as características essenciais do Cleveland.

O Cleveland Bay também mantém seu papel em cerimônias de estado britânicas — função que ocupa há séculos, e que talvez seja, hoje, sua forma mais visível de presença no mundo.

Perguntas Frequentes

O Cleveland Bay ainda é usado em cerimônias reais britânicas? Sim. A raça tem papel em cerimônias de estado há séculos e continua presente nas ocasiões oficiais da Coroa britânica — incluindo o Royal Mews em Londres. A Rainha Elizabeth II foi patrona da Cleveland Bay Horse Society até sua morte em 2022.

Cruzamentos com Cleveland Bay produzem bons cavalos esportivos? Sim, e há exemplos documentados de nível olímpico. O cruzamento com Thoroughbred e com warmbloods europeus tende a produzir animais com porte, substância e atletismo acima da média — herança da prepotência genética da raça, que transmite suas características com consistência para os cruzamentos.

O Cleveland Bay pode ser importado para o Brasil? Tecnicamente sim, mas a raridade da raça torna isso muito difícil na prática. Com apenas cerca de 1.000 puros no mundo inteiro, há poucos animais disponíveis mesmo no Reino Unido, e a prioridade dos criadores é a reprodução para conservação.

O que é o Kabardin e qual sua relação com o Cleveland Bay? O Kabardin é uma raça criada no Cáucaso pelos descendentes dos Sármatas — o mesmo povo que, segundo a hipótese histórica, trouxe os ancestrais do Cleveland Bay para a Inglaterra em 175 d.C. Um estudo genético confirmou ligação direta entre as duas raças, o que abre possibilidade de uso do Kabardin em programas futuros de conservação do Cleveland caso a população atinja um gargalo genético severo.

Por que o Cleveland Bay está em risco mesmo com programas de conservação? Porque o problema não é só o número de animais — é a diversidade genética. Um estudo de 2020 revelou que 91% das linhas de garanhões históricas já não existem na população viva, e que apenas três ancestrais determinam 50% do genoma atual. Isso significa que mesmo com crescimento no número de animais, a base genética continua estreita — e uma doença ou evento de seleção forte poderia eliminar características essenciais da raça de forma irreversível.

Fontes:

  • Henry Edmunds — An Interesting View of Cleveland Bay History (documento oficial CBHS)
  • Cleveland Bay Horse Society — The Cleveland Bay Horse Society 1884 (documento oficial CBHS)
  • Nigel Cowgill — A Brief History of the Cleveland Bay Horse: https://www.clevelandbay.com/history
  • Livestock Conservancy — Cleveland Bay Horse (seis garanhões em 1960, ~1.000 animais mundiais, ~220 na América do Norte, classificação "critical"): https://livestockconservancy.org/heritage-breeds/heritage-breeds-list/cleveland-bay-horse/
  • Cleveland Bay Horse Society of North America — história e população (~240 puros na América do Norte, 2024): https://clevelandbay.org
  • Mad Barn — Cleveland Bay Horse Breed Profile (dado genético 2020: 91% linhas de garanhões extintas, 3 ancestrais = 50% do genoma): https://madbarn.com/cleveland-bay-horse-breed-profile/
  • Wikipedia — Cleveland Bay (ligação Kabardin e Turcomano, Yorkshire Galloway como nome histórico): https://en.wikipedia.org/wiki/Cleveland_Bay
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.